terça-feira, 26 de maio de 2020

DA FOGUEIRA a BALA DA ARMA - o caça às bruxas de outrora é agora o feminicídio de todos os dias


Em meio ao isolamento social, a Cia. de Eros continua com seus encontros, agora virtuais, a todo vapor, buscando aprofundar os estudos da peça “A Brava”, a partir do livro “Calibã e a Bruxa – Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva”, de Silvia Federeci.
Convidamos você, companheiro/a de Eros, à leitura de dois trechos, recortados do livro, seguido de uma pequena reflexão de um dos integrantes da Cia, o ator Lélis Andrade.
Foto: Bruno Martorelli


“A caça às bruxas foi também instrumento da construção de uma nova ordem patriarcal em que os corpos das mulheres, seu trabalho e seus poderes sexuais e reprodutivos foram colocados sob o controle do Estado e transformados em recursos econômicos”.
“A caça às bruxas foi, por tanto, uma guerra contra as mulheres, foi uma tentativa coordenada de degradá-las, de demonizá-las e de destruir o seu poder social[...]”
De acordo com o Atlas da Violência de 2019, 4.936 mulheres foram vítimas do feminicídio, o que corresponde, aproximadamente, 14 mulheres por dia. Isso sem somar estatísticas dos anos anteriores aos deste ano. E por que tantas mulheres morrem? Somente por ser mulher? No livro citado acima, Federici argumenta que um dos motivos da caça às bruxas, no período que vai do fim da idade média até o início da moderna, seria para garantir o desenvolvimento do capitalismo.]
Atualmente, penso que seria para mantê-lo, além de deixar, exclusivamente, sobre o poder dos homens o controle de tal sistema. No entanto, o homem pelo homem não conseguiria sozinho eliminar, seja de forma simbólica ou não, tantas mulheres sem ser punido, não? Sim, esta é uma pergunta retórica! E para isso, tratando dos dias atuais, estão ao seu lado: o Estado, a Igreja, as Empresas Privadas e a Imprensa no geral, contribuindo e apoiando.
E a pergunta que faço a você, homem, que continua se privilegiando socialmente, desse sistema patriarcal, misógino e sexista, em silêncio) é: até quando irá ajudar a descarregar as balas, ou queimar os corpos femininos na fogueira?
Para contribuir com esta reflexão, cito uma frase da Angela Davis, filósofa estadunidense, que diz o seguinte: NÃO BASTA NÃO SER MACHISTA, É PRECISO SER ANTI-MACHISTA.
Não se posicionar contra esse sistema, estando ao lado das mulheres na luta contra o feminicídio, é assumir a responsabilidade, ou até mesmo a culpa, por todos os corpos que foram, e estão sendo, eliminados por qualquer espécie de violência, seja física ou psicológica, desde a fogueira até o tempo da bala. 


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