terça-feira, 30 de junho de 2020

EU FAÇO TEATRO E TRABALHO, por Flávio Vieira de Melo - UFSCAR/Sor. Brasil



Nativos Terra Rasgada
Resumo

Este artigo versa sobre a trajetória formativa, a prática teatral e o labor, de três artistas integrantes de um grupo de teatro de rua que, em meio às opções de formação e as condições estruturais que tiveram durante a infância e juventude, tornaram-se atriz e atores.

As entrevistas semiestruturadas revelam escolhas conscientes pela profissão e, que todos têm outro trabalho além do teatro. O antagonismo, trabalho formal versus prática artística, ganha outros significados nas experiências estudadas. O labor, é o sustento e também é a manutenção do desejo do artista que sonha em transformar sua prática em profissão.

Interessa ainda, observar a trajetória dos entrevistados tornando evidente alguns aspectos, como o primeiro contato com o teatro, a formação e a profissão que exercem hoje, na busca por compreender, se o teatro é ou não é trabalho para eles.

Palavras-chave: Arte na educação, Educação como Refúgio, Teatro, Trabalho.


Introdução

Primeiros movimentos

Este artigo analisa a trajetória de três sujeitos, uma mulher e dois homens, todos integrantes de um grupo de teatro de rua do interior do Estado de São Paulo que, escolheram ter a arte da encenação como profissão.

De modo geral, viver da atividade artística não é tarefa muito fácil, tão pouco uma condição exclusiva de nosso tempo. Mas, saber disso não exclui a modalidade, da lista de profissões almejadas por sujeitos que, ao optarem por ela, iniciam uma jornada que inclui melhoria de condições que permitam modificar o cenário.

Em Sorocaba, cidade com aproximadamente 700 mil habitantes, uma das maiores economias do Estado, a realidade posta não contribui para que a profissão de artista se efetive de fato. Não há políticas públicas instituídas que favoreçam este movimento, nem há instituições que façam os enfrentamentos desta questão, apenas um fórum permanente de cultura que, apesar de necessário e importante, me parece insuficiente para promover as transformações imprescindíveis.

Neste cenário, artistas se organizam em grupos e coletivos buscando construir sua existência no tempo (MELO, 2019), a exemplo do Nativos Terra Rasgada, que sobrevive às insurgências a quase dezessete anos. Na busca pela sobrevivência, os sujeitos propõem-se a praticar outras profissões além da escolhida atividade artística.

Sujeito e coletivo compõe a paisagem deste artigo. Por isso, analisamos as questões estruturais e as configurações onde: estrutura é uma perspectiva coletiva sobre a realidade dos sujeitos; e configurações são, a grosso modo, as questões particulares que compõe os enfrentamentos vividos pelos indivíduos. (Elias, 1994, p.48).

Deste modo, tomamos como ponto de partida, o primeiro contato dos três entrevistados com o teatro. Colhi relatos de suas primeiras experiências, não para linearizar suas vivências ou compor  justificativas teóricas para sua jornada, mas sim buscando revelar seus enfrentamentos, suas trajetórias de vida, que até o presente momento, fizeram dos três indivíduos, artistas de teatro de rua.

Interessa ainda, saber como suas trajetórias corroboraram para que pudessem se reconhecer como artistas, deixando de lado o antagonismo e a dicotomia entre a arte e o trabalho.

Cenário geral

O Nativos, é um grupo de teatro de rua, nomeiam-se assim, apesar de realizarem trabalhos em quaisquer espaços, inclusive nos teatros convencionais.

Existe como grupo desde janeiro de 2003, quando, com o objetivo de formar um grupo de teatro que pudesse se tornar em fonte de renda, alguns jovens entre 16 e 21 anos se reúnem em uma praça pública no centro da cidade de Sorocaba. Na praça Frei Baraúna funcionava a Oficina Cultural Regional Grande Otelo – G.O.. Dos presentes naquele primeiro encontro, três permanecem no Nativos hoje.

Alguns daqueles jovens que compuseram o grupo em sua primeira formação, tinham aulas de teatro em sua escola, todos alunos de instituições públicas que começaram a dividir seu tempo, pós período de aula, com a prática teatral.

A formação do grupo foi se modificando rapidamente, e só se compôs depois da estreia de seu primeiro trabalho, em novembro do ano de fundação. Ainda assim, houveram diversos momentos de entradas e saídas de pessoas que contribuíram para que o Nativos seja o grupo que é hoje.

Pode-se dizer que há um núcleo duro no grupo, composto por três casais. Compuseram este núcleo em 2005. Além destes, três outros integrantes compõe o Nativos, seus ingressos foram em 2011, 2012 e 2019. Deste coletivo, elenquei três pessoas para tomar como objeto de investigação: Bruna Salatini, no grupo desde 2004; Tom Ravazoli, 2005; e Samir Jaime, 2011.

Dos nove integrantes que compõe o grupo hoje, Bruna Salatini, Juliana Prestes, Stefany Cristiny, Flávio Melo, Celso Stefano, Rodrigo Zaneti, Samir Jaime, Tom Ravazoli e Vitor Silva. Quatro, Juliana Prestes, Samir Jaime, Celso Stefano e Vitor Silva, não são graduados no curso de licenciatura em teatro da UNISO. Sendo que Vitor, cursa o último ano.

O curso em questão, licenciatura em teatro/arte-educação, tem como foco a formação de artistas educadores. Significa dizer que o aluno graduado neste curso tem um diploma que lhe permite a profissionalização de ator (riz), diretor (a) e professor(a) de arte.

A abrangência de áreas de atuação que o currículo do curso possibilita, contribuiu para que a totalidade dos integrantes do Nativos mantivessem a dupla profissionalização. Ainda na faculdade, vários alunos conquistaram seu primeiro emprego como professor (a) em escolas das redes públicas de ensino. Atividade que garantia um ganho fixo.

No percurso formativo pelo qual passaram os integrantes do Nativos na UNISO, a demanda de professores na área da educação, ainda que segundo plano na lista de desejo de emprego para a totalidade dos alunos da graduação em teatro, tornava-se uma possibilidade mais atraente  economicamente. Por outro lado, a prática atoral 1 não se apresentava como opção de trabalho.

Deste modo, o desejo de ter o teatro como profissão, e a trajetória que fizeram, compôs uma realidade que não é exatamente o que imaginavam ter quando escolheram ser artistas.

Um sopro pelos trilhos da Sorocabana 2

Tom Ravazoli tem hoje 33 anos de idade, começou a fazer teatro quando tinha aproximadamente dez anos com sua professora da quarta série do ensino fundamental, em uma escola na cidade de Mairinque, interior de São Paulo. Relata entusiasmado, “apresentamos Os Saltimbancos para a formatura, eram quatro turmas e a quadra estava lotada, fiz o personagem principal. Nessa época a
professora gostava muito de mim...” (RAVAZOLI, 2018).

A experiência fez com que Tom se tornasse referência em sua escola, sendo lembrado e convidado a participar de diversas outras apresentações e atividades onde representava o colégio.

[...] esse estigma ficou em mim desde então, pois sempre que havia alguma coisa na escola, que tinha algum evento, ou montar uma peça de teatro, eu era chamado. Cheguei a carregar bandeira do
Brasil no lançamento do RG escolar, o RA na época. Foi o lançamento da região do polo de São Roque, porque Mairinque é dessa regional, faz parte da região. Cada aluno ficou responsável por
uma coisa, alguns iam carregar uma bandeira, ou receber o primeiro RG. Teve secretário do Estado presente. Na época o governador era o Mário Covas. Meu nome foi lembrado na escola por conta do
teatro. (RAVAZOLI, 2018).

Depois deste acontecimento na vida de Tom, ele continuou a fazer teatro, não só os trabalhos montados dentro das disciplinas que compunham a grade curricular, mas também integrando o grupo da escola que ensaiava e apresentava em horários alternativos, inclusive finais de semana.

O grupo de teatro da escola Estadual Maria de Oliveira Lellis Ito, Theatron, começa a realizar apresentações constantemente dentro da escola, o que atribui notoriedade ao grupo, que começa a apresentar também em eventos teatrais fora da escola, e até fora da cidade, fazendo com que o grupo se tornasse cada vez mais importante. Apesar disso,

[...] não havia nenhum espaço para apresentações na escola, mas depois da “fama”, do reconhecimento do grupo, houve um movimento para melhoria do espaço na escola. O Giovani conseguiu uma verba através da secretaria do estado de educação, mas ele conseguiu só
para material, então fizemos um mutirão na escola, e foi através das famílias: um pai que entende de elétrica; outro que sabe sobre construção civil... construímos com nossas próprias mãos o auditório
que tem o nome do Giovani. Já passou por reforma e existe até hoje. Esse grupo me permitiu uma experiência, atuar com minha mãe. Ela costura e ajudava muito com os figurinos. Na montagem de Dom Casmurro, uma das meninas saiu, e o Giovani a convidou para atuar. (RAVAZOLI, 2018).

A mobilização do professor, dos membros administrativos da escola, dos pais e dos alunos em prol da materialização de um espaço teatral dentro da escola, constitui-se como conduta exemplar que acentua a importância da realização desta prática teatral para a sociedade como um todo.

Quando terminou o ensino médio, Tom já havia trabalhado com seu pai na função de ajudante de jardineiro. E fez outros bicos como: vendedor de frutas em um caminhão que circulava pelas ruas; ajudante geral de uma pequena fábrica de caixas de som; e, concertando máquinas de costura em uma fábrica de langeries. Durante o ensino médio, frequentou dois cursos técnicos: um de
Mecânico de Usinagem em Maquinas Convencionais; e outro de Técnico em Informática. Quando concluiu os cursos e finalizou o colegial, prestou vestibular e foi aprovado no curso de Processamento de dados em Franca/SP, e Ciências da Computação em Presidente Prudente/SP. Por questões financeiras não fez a matricula em nenhum dos cursos que prestou e ficou sem estudar até 2005.

Tendo ficado sem estudar por dois anos, 2003 e 2004, seu professor e diretor teatral, Giovani, lhe falou sobre a graduação em Teatro/Arte-Educação da Universidade de Sorocaba – UNISO, curso que tinha acabado de abrir em Sorocaba. Tom fez vestibular e, como estava trabalhando, conseguiu iniciar as aulas em fevereiro de 2005. Depois de um Semestre cursando, conseguiu usar a pontuação
que tinha do ENEN, prestado em 2002, para fazer uso da bolsa ProUni.

Na faculdade, estudava na mesma sala que estavam quase todos os integrantes do Nativos. A proximidade com os Nativos foi inevitável, culminando no convite para compor o grupo em 2005. Sua atribuição inicial foi como músico, tocando no espetáculo As Relações Naturais, de Qorpo Santo. Posteriormente, atuou na peça A Romaria: Milagre na Manchester Paulista.

Quando entrei na universidade, a maioria dos integrantes do Nativos entraram na mesma turma que eu, sou da segunda turma de teatro na UNISO. Sem nenhuma pretensão acabei me aproximando, por
questão de afinidade, me aproximei mais dos integrantes dos Nativos do que o restante da sala. [...] eu tinha idade parecida, objetivos parecidos, então conheci melhor o Nativos, que nessa época estava no final de um processo com a peça, As Relações Naturais. Eu via eles falando desse processo e achei incrível. O que era, para mim, basicamente pegar texto e fazer teatro, a universidade e o Nativos me fizeram enxergar outra coisa, a importância e responsabilidade de fazer o teatro. (RAVAZOLI, 2018).

Com a montagem do segundo espetáculo citado, apoiado pela Lei de Incentivo à Cultura - LINC, e com a contemplação da bolsa da faculdade pelo PROUNI, Tom decide abandonar o trabalho e dedicar-se exclusivamente ao teatro.

Eu saí do trabalho para poder me dedicar mais ao teatro, e foi o período que entrei no Nativos. Portanto minha saída da empresa combinou na entrada no Nativos, que foi meu primeiro trabalho de
rua. Foi contemplado pela LINC - Lei de Incentivo à Cultura, meu primeiro cachê no Nativos, foi o que me ajudou a sair do emprego. Tinha contas ainda para pagar e morava em Mairinque ainda na
época. (RAVAZOLI, 2018).

Com a saída do emprego e as vindas constantes a Sorocaba, começa a dormir na casa dos amigos do grupo e, posteriormente na sede onde fica por aproximadamente dois anos. Quando começa a Namorar com Juliana, integrante do grupo também, passa praticamente a morar na cidade, até que isso efetivamente aconteça em meados de 2013.

Entre este período de saída do emprego e se estabelecendo em Sorocaba, Tom trabalhou como professor de teatro em escolas municipais, até se tornar coordenador pedagógico da empresa responsável pelo serviço. Mantinha ainda as atividades no Nativos, ensaiando e realizando apresentações.

Em meados de 2014, Tom assume a coordenação de um projeto de Educação para o trânsito, fruto de um contrato do Nativos com a prefeitura de Sorocaba. Função que ocupa até hoje, mas abandonou a coordenação de trabalho antigo e vive das apresentações e deste trabalho com o grupo, além de ministrar uma oficina semanal de iniciação musical em um sindicato e realizar trabalhos de
freelancer como ator e músico para grupos teatrais e musicais.

Na segurança também há incertezas

Bruna Salatini, tem 32 anos, a primeira experiência teatral se confunde com as brincadeiras de infância. Filha de professora, relata passagens com uma amiga onde criavam personagens e mostravam aos vizinhos.

[...] eu gostava muito de fazer apresentações, e não só de teatro. Quando eu era criança, era bailarina, apresentadora. Eu tinha uma amiga, e sempre ensaiávamos várias apresentações e saiamos batendo palma na casa dos vizinhos querendo vender ingressos para as apresentações. Então a gente ensaiava e queria que as crianças fossem lá assistir. A gente dançava, fazia peças, temos gravado até hoje. O pai dela tinha uma câmera, e a gente gravava vários programas de televisão, fazíamos cena, éramos apresentadores de tv, até desenhos, tipo bananas de pijama, ou ela era apresentadora e eu era a artista plástica convidada. Eu tinha sete anos na época. Mas não me lembro antes disso, de assistir peças, só sei que eu e essa amiga gostávamos muito de fazer isso e foi quando eu comecei a brincar com essas coisas... (SALATINI, 2018).

Nas brincadeiras de criança, Bruna já demostrava um olhar sobre a prática teatral que, de modo geral, se distingue da totalidade das pessoas, uma vez que mesmo na ingenuidade infantil, realiza a divulgação do espetáculo e cobra o valor do ingresso.

Durante a juventude seu contato com o teatro não se limitou às brincadeiras em casa com a amiga, realizava cenas para atividades escolares, trabalhos e atividades da disciplina de arte até começar a buscar aperfeiçoamento. O primeiro curso de teatro que eu fiz, foi a oficina do Mantovani, na
Grande Otelo. Não era bem um curso, era uma montagem já de um espetáculo, “O Despertar da Primavera”. Eu já fiz três juntos, que era esse “O Despertar da Primavera”, entrei em outro que era do Mario Persico, “o Anjo de Pedra”, e o outro era Galileu Galilei, mas desisti, fiz tudo, mas não cheguei a apresentar. (SALATINI, 2018).

Não se apresentou nem concluiu o curso que fazia no Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério – CEFAM, “porque meu pai conseguiu um emprego, no Paraná e eu tive que ir junto” (Salatini, entrevista 2018). Mesmo assim, Bruna destaca que as apresentações teatrais no SEFAM eram sérias, “[...] no começo do ano já tinha que preparar, porque era um espetáculo mesmo, não era nada simples” (iden, ibden).

Tendo concluído o ensino médio no Paraná, Bruna volta para Sorocaba por conta da transferência do pai. Imediatamente ingressa na primeira turma de licenciatura em Teatro da Universidade de Sorocaba – UNISO em 2004.

No primeiro ano de faculdade, conhece alguns integrantes do grupo que estavam em sua turma, iniciando ali uma ligação com o Nativos. Mas foi por conta de seu trabalho como iluminadora que recebeu o convite para realizar o designer e operar a iluminação de um espetáculo, As Relações Naturais, 2004/2005. Durante a temporada, uma das atrizes sai do grupo e Bruna se integra efetivamente. Com sua entrada na licenciatura em teatro, os alunos podiam realizar sua inscrição na Secretaria de Estado da Educação para ministrar aulas de arte, nas escolas públicas.

Quando eu entrei na UNISO, já queria dar aula, porque estava sem dinheiro. Abriu inscrição e eu fiz, não tinha nem 18 anos ainda. Quando fiz 18 anos, comprei uma moto, para ir para Itu dar aula, lá
em Salto de Itu. (SALATINI, 2018).

Ministrou aulas como professora substituta, depois teve atribuição de algumas aulas até que foi aprovada e efetivada como professora a partir de concurso público estadual. Pouco tempo depois, passa em novo concurso e acumula dois cargos como professora. Além disso nunca deixou de atuar no Nativos e, por vezes, ainda cozinhava quitutes para vender.

Mais sorte do que juízo

Samir Jaime, 39 anos, também tem o primeiro contato com teatro na escola, na aula de artes vendo uma cena realizada por sua professora que tinha um affair com o teatro,

[...] uma vez ela levou uma cena que ela fazia, bem dramática. Com os alunos do quinto ano ela trabalhava muito teatro, trabalhava máscara e eu adorava ver. Como ela tinha essa veia, queria ser
artista, mas aquela é a profissão da TV. Eu lembro exatamente, foi esse o momento que decidi fazer isso para minha vida. Aquele momento foi o gatilho, o ponto foi uma das aulas que ela mandou a
gente pensar cenas, e eu pensei uma cena para o nosso grupo, era para fazer o jornal. Cada grupo tinha que fazer o jornal, eu era o repórter do jornal, eu lembro que eu peguei uma peruca que eu nem
lembro da onde tirei aquela peruca. Fiz uma voz diferente... bem que lembrava muito cara do “Loucademia de polícia”, eu fiz aquela cena entrevistando. E eu lembro da cena eufórica, e depois que acabou, ela falando sabe - que da hora! Nossa, muito bom! - Era tudo que eu pensei, e ela disse que eu tinha que fazer isso, que eu tinha muito jeito para essas coisas. Eu lembro disso porque ela falou aquilo e ficou na minha cabeça. Eu estava no quinto ano, eu tinha uns 10 ou 11 anos naquele momento. Parece que alguma coisa ligou e disse assim para mim - Olha é possível fazer isso, é possível que isso seja o que você vai fazer da sua vida. - E depois, aquilo não saiu mais da minha cabeça. (JAIME, 2018).

A experiência teatral vivenciada quando criança marcou sua vida. Depois da cena apresentada pela professora na escola, Samir passou a fazer todas as atividades artísticas de todas as disciplinas para apresentações de trabalhos. Mesmo com a disposição para as atividades artísticas, reprovou duas vezes de série e no início do terceiro ano do ensino médio, foi diagnosticado com um câncer, e
passa a dedicar-se exclusivamente ao tratamento até se curar definitivamente.

Quando teve alta, lamentou “acabei perdendo este ano. Na volta, eu já estava velho, não tinha mais paciência por ter perdido um ano, todos meus colegas já tinham saído, aí eu acabei optando por terminar o ensino médio no supletivo”. (Jaime, entrevista, 2018).

[...] quando eu terminei o ensino médio tinha a ideia de fazer uma faculdade de teatro, mas a faculdade de teatro em porto alegre é só Federal. E a federal era aula ensino integral, não tem só a noite por exemplo, e eu não tinha como fazer porque eu precisava trabalhar, precisava trabalhar para ajudar em casa. (JAIME, 2018).

A trajetória do Samir com o teatro não se distingue da sua relação com o trabalho e com a educação. Como seus pais eram proprietários de uma lanchonete, ele trabalha desde muito jovem o que o levou a buscar sua independência financeira. Com a separação de seus pais e o ingresso em um emprego fixo de almoxarife de um hospital, resolve retomar o sonho de fazer teatro.

[...] eu recém tinha começado a trabalhar, me lembro que olhando os classificados no jornal, vi uma oficina de teatro. O valor acessível na época. Mas eu não podia ir todos os sábados, não conseguiria ir nas primeiras aulas porque a minha mãe estava se mudando, ela estava morando em Farroupilha e eu fiquei um ano morando com a minha vó. Ela voltou bem nessa data e eu perdi as primeiras aulas, precisei ajudar na mudança. E aí, eu liguei no lugar e a pessoa disse que eu podia ir, porque as primeiras aulas eram mais para apresentação, que não teria problema. Eu fui para a oficina. (JAMIE, 2018).

Desta oficina, surge o grupo teatral Manjericão que foi se constituindo na cidade com vendas de trabalhos de palhaços e de espetáculos. Samir vê renascer o sonho de se tornar ator, o que não durou muito. Sem conseguir se sustentar com apresentações, Samir realizava serviços de freelancer editando vídeos. O teatro e o trabalho permeavam as decisões importantes de sua vida, como fala em tom alívio.

[...] comecei a trabalhar num lugar muito ruim, e chegou uma hora que eu desisti dessa ideia de ser ator. Eu me lembro de discutir com minha mãe sobre isso, queria voltar fazer um curso técnico, eu
procurava coisas que sempre o teatro estava de fundo, como eu não podia largar ele, eu procurava coisas que me permitissem fazê-lo. Decidi largar mesmo, procurar algo que possa me servir para o
futuro, procurar um emprego. Sabia que quando fosse mais velho seria frustrado por não ter feito o que queria, mas segui. E no mesmo dia que tomei essa decisão, o Marcio me liga, perguntando se eu
topava dar umas oficinas de teatro, e eu nunca tinha dado aula de teatro, muito menos para crianças. Eram aulas para crianças no bairro Restinga, um bairro super longe em Porto Alegre, extremo Sul
de Porto Alegre. Como estava sem trabalho eu topei, pensei que logo ia desistir disso, surge uma forma de trabalhar e permear o teatro,então topei. (JAIME, 2018).

Ministrando oficinas de teatro e atuando, se manteve no Manjericão até final de 2010. Em uma apresentação na Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas na cidade de São Paulo/SP, 2009, conhece o Nativos Terra Rasgada e em 2011 muda-se para Sorocaba. Na nova cidade, mescla seu tempo entre a atuação, edição de vídeos e oficinas de teatro.

No Nativos, além de atuar nos espetáculos, Samir trabalhou como arte educador no projeto de educação para o trânsito e atualmente presta serviços de arte finalista.

RUA SEM SAÍDA

São muitos os aspectos que colocam a prática teatral, a formação e o labor em uma espécie de linearidade histórica, como se a Bruna, por exemplo, já tivesse nascido para ser professora de arte e atriz, ou o Tom, que apesar de, hoje, não ministrar aulas de teatro, mas atua e coordena um projeto de educação, estivesse destinado a isso. Não é assim que os percebo.

Quando Ernest Fisher (1973), fala que a arte é uma atribuição necessária para constituir a  humanidade, quando Spolin (2005) afirma que ninguém ensina nada a ninguém e todos aprendemos a partir de nossas experiências, compreendo melhor as vivências aqui abordadas.

Tom, Bruna e Samir, tiveram na escola uma experiência de apreciação e experimentação estética, viram despertar neles próprios, aquilo que Fischer (1973,p.12), descreve sobre a essência do ser humano.

É claro que o homem quer ser mais que apenas ele mesmo. Quer ser um homem total. Não lhe basta ser um indivíduo separado; além da parcialidade da sua vida individual, anseia uma “plenitude” que
sente e tenta alcançar, uma plenitude de vida que lhe é fraudada pela individualidade e todas as suas limitações; uma plenitude na direção da qual se orienta quando busca um mundo mais compreensível e mais justo, um mundo que tenha significação. (FISHER, 1973, p.12. Grifos do autor).

Experiênciar a arte pode revelar um novo mundo, um mundo de possibilidades que a realidade não contempla, não disponibiliza. Como afirma Spolin (2005), ao experimentar vivemos, e ao viver sentimos e pensamos essa existência. Passamos a projetar uma realidade diferente da que está posta, uma realidade possível, e é assim que aprendemos, e ao aprender, movimentamo-nos com a
intenção de mudar.

Observa-se diversos movimentos nas trajetórias dos sujeitos, desde o seu contato inicial com o teatro até hoje, mesmo já tendo passado por processos formativos e até feito as escolhas com relação à profissão, que buscam criar fissuras na realidade para possibilitar novas experiências por intermédio da arte. Dizendo a mesma coisa de outro modo, as práticas profissionais e os modos de vida dos
entrevistados sofrem frequentes adaptações para possibilitar que possam continuar a fazer teatro.

Ainda tomando Fisher (1973) como referência, a necessidade da arte toca pontos tão repelidos pela sociedade que para algumas pessoas chegam a chamar a possibilidade da prática artística, de sonho.

As empolgações relatadas por eles durante seu contato com o teatro não dão conta de revelar, por exemplo, os enfrentamentos e as concessões que fizeram em prol de conquistarem o direito e construírem as condições estruturais para permanecerem com a prática artística.

Retomando as palavras do Samir, por exemplo, fica claro as constantes adaptações que teve de fazer em seus trabalhos, as vezes até abrindo mão deles, em sua relação familiar e, de modo geral nos seus planos de vida, mas o que não mudou, foi sua necessidade de fazer teatro.

[...] eu tinha planos para viajar para a Europa. Eu queria ir para lá, na minha mente jovem, a minha ideia de ir para lá para trabalhar. Na minha mente, eu trabalharia uns cinco anos, ia juntar uma grana, ajudaria minha mãe, voltaria e poderia fazer o que quisesse, poderia fazer teatro. Essa era a mentalidade. Eu lavaria pratos, são essas coisas que brasileiros fazem por lá, são essas coisas que a gente pensa. Nesse meio tempo, se eu conseguisse fazer teatro, seria legal porque se eu voltasse, poderia falar que eu tinha feito teatro lá, eu ia virar chique. Só pensava que quando voltasse, iam me pagar uns mil reais por minha oficina. (JAIME, 2018).

Por motivos diversos, opções pouco prováveis são adotadas quando se está contaminado pela praga do teatro. Como nos ensina Artaud (2006), há no teatro uma capacidade de sobrevivência e coragem desafiadora que permeia a falta de lógica, desafia a racionalidade, mas efetiva-se em meio às catástrofes devastadoras. Enquanto as imagens da peste em relação com um poderoso estado
de desorganização física são como os derradeiros jorros de uma força espiritual que se esgota, as imagens da poesia no teatro são uma força espiritual que começa sua trajetória no sensível e
dispensa a realidade. Uma vez lançado em seu furor, é preciso muito mais virtude ao ator para impedir-se de cometer um crime do que coragem ao assassino para executar seu crime, e é aqui que, em sua gratuidade, que a ação de um sentimento no teatro surge como algo infinitamente mais válido do que a ação de um sentimento realizado. Diante do furor do assassino que se esgota, o furor do ator trágico permanece num círculo puro e fechado. O furor do assassino realizou um ato, ele se descarrega e perde contato com a força que o inspira, mas que não mais o alimentará. Esse furor assumiu agora uma forma, a do ator, que se nega à medida que se libera, se funde na universalidade. (ARTAUD, 2006, p.21).

Mesmo que pareça cruel, a imagem que compõe a trajetória destes sujeitos do grupo teatral Nativos Terra Rasgada, e por assimilação, sujeitos artistas, estudantes e trabalhadores da arte de modo geral, é do artífice que se alimenta da ação não efetivada, mas que está sempre na eminência do por vir.

Na prática artística profissional, seja lá o que isso possa significar efetivamente, uma vez que se trata de uma não realidade, a esperança renova-se a cada projeto, a cada espetáculo, a cada edital. Renova-se no sentido de tornar realidade o trabalho em si, mas também materializar seu esforço em remuneração. Não alcançar uma destas opções, ao mesmo tempo que pode causar certa frustração, também renova a energia para a tentativa seguinte.

A questão em voga, desde o primeiro experimento teatral, no processo formativo e na prática profissional, é o sonho.

Das trajetórias abordadas, resenho: Samir conheceu o teatro na escola, começou a sonhar em ser ator, mas nunca quis ser professor. Na sua trajetória, aceitou o desafio de ministrar aulas de teatro, mesmo sem ter uma formação acadêmica e hoje afirma gostar muito de dar aula. Pratica apresentações em meios à rotina de aulas.

Bruna, brincava de fazer teatro com sua amiga em casa, mas cresceu e vislumbrou a carreira de professora. Iniciou o magistério e ao término do ensino médio conjunto, viu o teatro renascer e tornar-se possibilidade de profissão para ela. Diz que o curso de licenciatura em teatro era a justificativa perfeita para sustentar sua escolha profissional.

Tom, encarou o teatro na infância e na adolescência como uma atividade complementar e recreativa, nunca como opção de trabalho. Chegou a passar em dois vestibulares de universidades públicas, mas quando foi provocado a cursar teatro, encontrou-se. Não ministra aula de teatro, mas coordena um projeto de educação dentro do Nativos.

Fazem teatro os trabalhadores da educação? Ou educam os artistas com seus trabalhos?

Depois desta pesquisa, tendo a compor uma resposta correlacionada em concordância com Segnini (2000, p.1), parafraseio-a desta forma: O teatro, a “educação e trabalho, compõe uma relação tão necessária quanto insuficiente”.

Referências

Artaud, Antonin. O teatro e seu duplo. Tradução de Teixeira Coelho. São Paulo:
Martins Fontes, 2006.
Elias, Norbert. A Sociedade dos Indivíduos. Tradução de Ribeiro V.. Rio de
Janeiro: Zahar, 1994.

FISCHER, Ernest. A Necessidade da Arte. Tradução de Leandro Konder. Rio de
Janeiro: Zahar, 1973.
JAIME, Samir. Entrevista. Sorocaba/SP: Nativos Terra Rasgada 2018.
Marx, Karl. O Capital. Tradução de Ronaldo Alves Schmidt. Rio de Janeiro: Zahar,
1982.
Masi, Domênico de. Ócio Criativo. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2000.
SALATINI, Bruna. Entrevista. Sorocaba/SP: Nativos Terra Rasgada 2018.
SPOLIN, Viola. Improvisação para o Teatro. Tradução de Ingrid Dourmien
Koudela. São Paulo: Perspectiva, 2005.
RAVAZOLI, Tom. Entrevista. Sorocaba/SP: Nativos Terra Rasgada 2018.

Mestre em Educação, Universidade Federal de São Carlos, Sorocaba,
flaviomelo@nativosterrarasgada.com.br, Grupo de estudos: Grupo Gerações,
percursos de vida e processos educativos, https://orcid.org/0000-0002-2777-6998

1 Referente ao ator.
2 2 Sorocabana é o nome da estrada de ferro que liga Sorocaba ao porto de Santos, passando por
Mairinque, torna-se o símbolo da cidade.

terça-feira, 23 de junho de 2020

UMA LEITURA SOBRE A BRAVA, ENCENAÇÃO PRODIGIOSA PARA INQUIETAR

Foto: Giulia Baptistella
A Companhia de Eros já completou a primeira década de existência. Chuva oblíqua, referência ao poema de Fernando Pessoa, foi seu primeiro espetáculo, que estreou em fevereiro de 2010 no Centro Cultural Brasital, em São Roque (SP). Nesses anos, sempre sob a direção de Lisa Camargo, as produções foram marcadas por muitos aprendizados em investigações e linguagens cênicas. A peça levada ao público atualmente é A Brava, que conta a história de Joana d’Arc por meio de uma encenação em que o espectador pode notar referências ao contexto sociopolítico atual. As disputas pelo poder, em particular a tendência do apagamento dos feitos das mulheres e a violência a elas dirigida, são apenas algumas das visões em um panorama que remete ao nosso cotidiano.
Joana d’Arc, valendo-se de imensa coragem, veste-se de homem e vai à guerra. Em defesa da França, mesmo tendo acirradas vitórias no campo de batalha, acaba sendo condenada pelo tribunal da Santa Inquisição. O seu castigo é morrer queimada. Não há spoiler aqui, imagino, tão conhecida se tornou a figura de Joana d’Arc.
Essa encenação é também uma homenagem à Brava Companhia, um grupo paulistano de teatro cujos atores são filhos de trabalhadores da periferia. Faz mais de 20 anos que esta companhia tem uma reconhecida expressão teatral militante pela arte e pelo acesso a bens culturais em bairros pobres do sul de São Paulo. Para incrementar suas produções, os integrantes da Brava dedicam-se a estudos e debates, entre outras temas, sobre mercado, poder, Estado, dominação, luta de classes, religião. Desse modo, aprimoram o entendimento sobre a função social do teatro, do que essa potencialidade artística, mediante uma perspectiva de assombro diante da realidade, é capaz de trazer para si e para a população daquelas localidades.
Ainda que em uma precária comparação, um espectador deixar de estar, por umas horas, passivo diante de uma tela da televisão ou obcecado pelo celular e sentir, bem ali de perto, uma peça que lhe incite a questionamentos abre uma possibilidade de reinvenção. É um convite à vida pulsante, sensível e inteligente. É uma fresta que se abre para um novo modo de articular as palavras e o discurso, a prestar atenção numa história que se conta de outro modo, instigante por seus muitos recursos de ênfase, movimentação, figurino, música. Enfim, a magia que o teatro costuma despertar, a ampliação na produção de significados por parte dos espectadores. 
 De tal modo que a Brava Companhia decidiu manter-se nos espaços periféricos – não foi, por exemplo, integrar outro circuito com a finalidade de apresentar uma peça de sucesso.  A escolha é, portanto, realçar o aspecto político da arte.
Provocação, força expressiva e engajamento social poderiam ser o resumo de palavras-chave que ficou na mente de Lisa Camargo quando viu pela primeira vez, por meio audiovisual, a peça A Brava. Logo movimentou o desejo de trabalhá-la com seu grupo e, depois das combinações fechadas, pôde fazer a adaptação. A diretora refletiu diante de suas próprias vivências em contato com a arte e as de seu público. Com seu olhar diligente, Lisa orquestrou uma encenação mais enxuta, completando uma hora de apresentação.
Com seu olhar diligente, Lisa orquestrou uma encenação mais enxuta, completando uma hora de apresentação. A busca de um local propício não gerou, dessa vez, tanta ansiedade, porque houve uma experiência anterior. Em 2018, a Companhia de Eros ensaiava Opa, mais uma vez!, inaugurando uma fase de pesquisa do teatro épico. E foi saudada por um acontecimento feliz ao encontrar a antiga estação de trem de São Roque (SP) como espaço para as exibições. A céu aberto, houve o “encontro do nosso lugar”, em que o conjunto de atores flagrou o sentir de “heureca”, ali onde havia a colaboração de muitos fatores para conseguirem destravar qualquer impasse: o espaço corredor.  Esse ambiente não convencional propiciou as mesmas condições privilegiadas para as apresentações de A Brava.
A estação ferroviária, nessa dimensão, é palco de duplo significado. O primeiro de aporte de memórias travadas ao longo de um tempo histórico, em que prevalecia a dinâmica de embarque e desembarque de passageiros. O segundo, ao abrigar o espetáculo que reúne uma jornada heroica, de um tema clássico na dramaturgia, trazendo de um passado muito distante o chamado crítico e de reflexão à luz dos nossos dias.  Reportando-se a uma tradição, que vem da Grécia antiga e evidenciou-se em peças de Sófocles e Ésquilo (século IV a.C.), faz-se presente em A Brava o coro, quando um grupo de atores afasta-se da ação principal e noticia os acontecimentos representados. A ligação entre o drama que se desenrola – em que o público é encarado, muitas vezes, olhos nos olhos, numa ação direta – e o coro tem um aspecto peculiar. Ele assume o papel de uma personagem da peça, proporcionando quebras da ação, de modo a fazer o público refletir e talvez fomentar tomadas de consciência.
As atrizes e os atores elaboram sua presença cênica por meio da naturalidade, aproximando os gestos e movimentos de suas ações cotidianas, numa linha de adesão à linguagem enfatizada por Eugenio Barba. Nesse ponto, é possível notar que elas e eles buscam sair de seus condicionamentos corporais, adquiridos na apropriação de nossa cultura que evoca, com frequência, posturas rígidas cerceadoras de atos criativos. Outro ponto alto, em meu entendimento, é o fato de termos um vigoroso jogo teatral quanto à múltipla personagem Joana. Não há uma protagonista que a encarna, senão todas as atrizes em cena que, na composição do figurino, incluem acessórios que usam no dia a dia, resguardando uma caracterização pessoal.
Foto: Giulia Baptistella
Nessa linguagem selecionada, democratiza-se o protagonismo das mulheres – eis um insight de Lisa, que se deu conta de quão fascinante seria retirar a posição de coadjuvantes. Todas são Joana d’Arc, incluindo a própria diretora, que reforça o intenso processo de colaboração com as atrizes ao evidenciar o desempenho das mulheres nas artes cênicas. É uma condição em que não se apela ao trivial de ser a única, a que chama mais a atenção. Passando longe do estatuto corriqueiro, essa transformação de todas serem a heroína permite a manifestação tanto da face da guerreira quanto o enfrentamento da opressão pelas mãos do patriarcado, no arranjo dramático que encerra o acordo entre a monarquia e a Igreja católica. 
A outra perspectiva de tal representação é propiciar à plateia significados a serem extraídos não apenas relativos ao âmbito artístico, mas, sem dúvida, ao palco da vida, à forma de expressão mais desafiadora em que cada mulher pode e deve exercer inteiramente seu papel de protagonista. Se, nos dias atuais, existe uma ascensão de movimentos de mulheres que estão bastante conscientes de fazer valer seus direitos e se empenham em atingir condições mais igualitárias em relação aos homens, ainda há muito pelo que lutar, haja vista os índices alarmantes de violência causados pela dominação masculina, seja no nível físico, seja psicológico ou simbólico. O alerta principal, contudo, está estampado em muitas manchetes, quando vemos que os casos de feminicídio em nosso país só têm aumentado.  
Em meu olhar, talvez caiba a respeito do espetáculo fazer uma observação, apenas. Embora seja consistente a crítica ao poder da instituição católica, notadamente naquela perspectiva que encerra um jogo de poder para o estabelecimento de seu domínio, parece-me que uma pequena atualização crítica poderia ser realizada em torno das muitas figuras de pastores, verdadeiro fenômeno – não representativo de um conjunto homogêneo, e já existem bons estudos a respeito do tema – atrelado ao crescimento de igrejas evangélicas e pentecostais. Entre outras estratégias, acenam com as promessas de milagres e organizam a recolha eficiente de dízimo, forjando, algumas delas, a formação de impérios econômicos. Sua expressão está presente em canais de televisão e rádio, grupos educacionais, editoras, gravadoras, criando uma rede de promoção às candidaturas evangélicas. Não é à toa que atualmente entre elas há numerosos representantes em altos postos no campo político, comprometendo a base de um Estado que, para preservar sua função imparcial na defesa de direitos de todas e todos, deve manter-se laico. 
Foto: Giulia Baptistella
Criar uma interação vívida, capaz de dialogar com os espectadores, chamando à mudança de realidade, em um país que vive um tempo tão sombrio, é um dos impactos causados quando vemos A Brava. É também uma peça sustentada por uma linha de pensamento em que se faz um combate ao consumismo e às estratégias hegemônicas dominantes. Vamos supor que, por uma tarde, longe do celular e da possibilidade de pensar em assistir a uma novela ou a uma série, um dos mais recentes produtos da indústria cultural, você vá prestigiar esse trabalho cênico. No desfecho, é provável que saia diferente de quando entrou, talvez fazendo algumas perguntas, talvez desejando mudanças profundas. Penso que é, de fato, essa a proposta de A Brava, que traz uma tensão, entrelaçada por um senso de comprometimento ético e social.  Que você possa ser impregnado por essa potencialidade. Bom espetáculo!
Eloísa Aragão é historiadora (mestrado e doutorado em História Social pela USP), editora, preparadora e revisora de textos.


terça-feira, 16 de junho de 2020

A BRAVA, UMA PERCEPÇÃO E UM SENTIR

Foto: Meire Garcia         
        Neste domingo (08/12/2019) fui convidado para assistir a uma peça de teatro a céu aberto aqui na cidade de São Roque. Fui, confesso, sem muitas expectativas do que iria encontrar, um pouco por não conhecer ainda o grupo que iria se apresentar, Companhia de Eros, outro tanto por nunca ter tido a oportunidade de assistir uma apresentação a céu aberto como a que estava sendo proposta.
Já assisti outras apresentações em praças, com atores, atrizes, palhaços mambembes em meio ao povo que atravessa estes espaços seguindo seus afazeres cotidianos, mas acabam parando casualmente para assistir ao espetáculo antes de continuarem suas tarefas e preocupações, quase como se repentinamente pudessem dar uma pausa na própria vida, para levantar o véu de um espaço mágico, em que por um breve instante pudessem voltar a ser eles mesmos. Sem preocupações, sem pressa, revendo rapidamente uma infância fugidia mas nunca esquecida.
          Apesar destas manifestações culturais terem sua magia, no caso a proposta era outra, mais estruturada, a começar pela escolha do local, que apesar de ser aberto e público, não era um espaço de circulação de pessoas, por lá não existiriam caminhantes incautos sendo pegos de surpresa por algo que desconheciam, quem lá se encontrava estava por escolha, procurando outro tipo coisa, procurando por uma história a ser ouvida. E devo dizer que isso foi exatamente o que encontramos: uma história que merecia ser contada.
          Fui sabendo apenas o nome geral, que ainda desconhecia se era da peça ou do grupo… “A Brava”… Apenas lá chegando é que descobri que se tratava do nome da peça em questão: a vida de Joana D´Arc. Ressalto isto apenas para frisar o tanto que eu me encontrava aberto e destituído de qualquer tipo de expectativa prévia quanto ao espetáculo que iria assistir. Fui esperando descobrir o que viria…
          Sentei na beira da antiga plataforma, (que já assistira certamente muitos passageiros subindo e descendo de comboios no passado…), sentindo uma leve ansiedade e me perguntando como aquele espaço poderia ser utilizado para uma apresentação de teatro, já que para mim era um corredor sem paredes, mas muito bem delimitado pelos trilhos e pelas duas plataformas, uma de cada lado, que agora se achavam ocupadas por pessoas quem talvez na mesma expectativa que eu carregava.
          Onde se encontrava o palco? Para onde seria dirigida minha atenção? Para qual lado do público, sentados frente a frente, seria dirigida a fala? Sim, creio já ter ficado claro que não sou de fato alguém do teatro, apesar de apreciar muito esta arte.
          Em meio a essa expectativa, ouço o sinal de atenção, chamando para o inicio dos trabalhos, e repentinamente, sem precisar de maiores explicações, em apenas uma primeira fala, entendo como o espaço foi pensado e distribuído.
          E mais que isso, entendo num momento onde reside de fato a magia do teatro…
Percebo que não é preciso um palco, pois o palco é onde estão os atores, eles que fazem o espaço, não o espaço que os rege. Percebo para onde a fala é dirigida, para fora, para o mundo, não para um ponto específico, já que, como noto, o próprio público sentado ao redor dos trilhos e da plataforma se tornou parte do espetáculo, interagindo, acompanhando, dando corpo à narrativa.
          A magia do teatro reside nas pessoas. E isto eu percebi pois senti que me afeiçoei aos atores e atrizes desde o primeiro movimento, já que eu conseguia perceber as pessoas para além dos personagens. Ao mesmo tempo em que percebia a vida dos personagens falando através dos atores e das atrizes. E mais que isto, através destes eu consegui ouvir e sentir a história sendo contada.
          Já conhecia a história de Joana D´Arc, pelos livros. Creio no entanto, ter percebido que o teatro é isto, contar uma história não apenas relatando fatos, mas tornando vivo o que é relatado.  Neste sentido o grupo Companhia de Eros, foi muito feliz em seu trabalho. 
      A Brava, Uma percepção e um sentir. Me levando a perceber o quanto os mesmos enfrentamentos e crises de ontem se encontram presentes hoje. Da mesma forma como ainda se reproduzem as lutas, traições, mentiras, resistência, e coragem do passado da humanidade.
       Considero um privilegio ter vivenciado o contar desta história e sinceramente, agradeço.

Nairan Ballesta
São Roque,  21/12/2019

terça-feira, 9 de junho de 2020

DENUNCIEI! por GUILHERME VELOSO



@caikefotografia

     Hoje eu decidi compartilhar um fato que aconteceu comigo há umas semanas atrás. Como alguns de vocês sabem, sou estudante do 9º semestre de psicologia na Universidade Paulista de Sorocaba e enquanto estava cumprindo uma atividade no site da faculdade, encontrei uma pergunta de genética humana que abordava o tema “miscigenação” e questionava qual seria o resultado de um cruzamento entre um indivíduo de pele branca e um indivíduo de pele preta. Nas alternativas me deparei com: a) Mulato. 

SIM, MULATO.

     Acredito que, em pleno 2020, todos e todas já deveríamos saber a origem desse termo. Mas, caso alguém ainda não esteja ciente: é uma palavra de cunho racista. “Mulato” vem de “Mula”, animal resultante do cruzamento visto como “impróprio” entre um cavalo e uma jumenta. Por isso, essa palavra começou a ser usada no período da escravidão para designar filhos de escravas que eram fruto de estupros dos senhores de engenho. Inclusive, vale citar que por muito tempo, graças ao racismo cientifico e pensadores racistas assim como o Linneu (Carl Nilsson Linnæus), pensava-se que os “mulatos” eram inférteis, assim como as mulas também são.

     Esse fato nos faz perceber como o racismo está sempre presente no dia a dia, mesmo que de forma sutil. Nem sempre ele chega escancarado, numa ofensa direta, num comportamento segregacionista. Às vezes ele tá ali, numa palavrinha escondida e que passa despercebida pela maioria das pessoas – algumas por não conhecerem, algumas por não se importarem.

     Silvio Almeida, em seu livro “Racismo Estrutural”, afirma: “consciente de que o racismo é parte da estrutura racial e, por isso, não necessita de intenção para se manifestar, por mais que calar-se diante do racismo não faça do indivíduo moral e/ou juridicamente culpado ou responsável, certamente o silêncio o torna ética e politicamente responsável pela manutenção do racismo. 
       
     A mudança da sociedade não se faz apenas com denúncias ou com repúdio moral do racismo: depende, antes de tudo, da tomada de posturas e da adoção de práticas antirracistas”.

     É inadmissível que, em tempos atuais, o racismo seja perpetuado por instituições de ensino onde existem pessoas aptas e com acesso à informação, de modo que também é inaceitável que alguém nessas condições tenha formulado essa questão e a palavra ainda tenha passado despercebida numa avaliação/revisão posterior antes de ir para o ar. Pensando nisso, juntamente com as minhas angústias e vivências diárias em 21 anos de vida enquanto homem preto, resolvi não me calar diante dessa situação que seria “singela” ao olhar de muitos.

DENUNCIEI.

     Denunciei porque considero importante que sejamos ativos quando se trata de sermos antirracistas. Eu compreendo quando dizem que é cansativo ficar ensinando os brancos a não serem racistas, é cansativo entregar tudo mastigadinho, explicar 1, 2, 3 vezes. De fato, é. Mas eu julgo ser importante compartilhar, pois como bem disse o psicólogo Lucas Veiga (@veigalucas_), no Fantástico no último domingo: “É muito importante que as pessoas que sofrem essa violência, tenham condições de elaborar essa violência, de falar sobre ela com outras pessoas. Quando uma pessoa negra é tratada como um animal é desumanizada, uma forma de matar no sentido de valor próprio da pessoa. Uma forma de matar a identidade negra que a pessoa a duras penas constrói para si.” 

     Como nos lembra Linn da quebrada (@linndaquebrada) em um dos trechos de sua música “quando não se tem memória, se repete a velha história”.

     A UNIP excluiu a questão e substituiu por outra. E aqui está o motivo pelo qual decidi expor esse fato: nós podemos ser agentes de mudança. Não tenham medo de denunciar, de falar sobre, de cobrar das pessoas e das instituições. O que eles mais querem é o nosso silêncio e a nossa obediência.

Não se calem!

     Por compreender que caminhos não se constroem sozinhos, deixo aqui meus agradecimentos as pessoas que me acolheram e fortaleceram meu “corre”. 

    Quero agradecer a @frangmnz por acolher tão cuidadosamente e precisamente a minha angústia além de compartilhar das dores desse processo, e por colaborar efetivamente com sua experiência em redação. As amigas, educadores e advogade que me incentivaram, orientaram, respaldaram e me fortaleceram para compartilhar esse relato. A bióloga @karina_ketlyn pela amizade, ensinamentos, construções, trocas e estudos. Ao queridíssimo psicólogo @danilogomes_psi @macumbaria pela afetividade, carinho, sensibilidade, trocas, vivências, fortalecimentos e de me lembrar das lutas emancipatórias e principalmente, das pessoas dessas lutas. Ao fotógrafo @oxicaike_ @caikefoto @caikefotografia , profissional incrível que tanto trocou como também editou a foto acima. A minha terapeuta @gabicspsi, por tudo que construímos juntos e por todo suporte de sempre. Muito obrigado!

Deixo aqui algumas indicações de suma importância: o vídeo da Nátaly Neri @natalyneri no TEDx: A mulata que nunca chegou. Os vídeos do Thiago Torres @chavosodausp , os livros e textos da Djamila Ribeiro, Racismo estrutural de Silvio Almeida, A Crítica da razão negra de Achille Mbembe, o quadro Redenção de Cam, as músicas da Linn e o filme Vênus negra.

Guilherme Veloso é integrante da Companhia de Eros desde 2016.

terça-feira, 2 de junho de 2020

AS PALAVRAS COMO FOGO por AMANDA SOBRAL


Foto: Bruno Martorelli

            Joana D´Arc, a personagem mote da reflexão do espetáculo A Brava da Cia de Eros, poderia ter dito outras palavras, poderia ter engolido letra a letra, fonema a fonema e ter produzido um enunciado favorável à perpetuação de sua vida. Sua premissa poderia ter sido trocada ou omitida em prol as incisivas grafias dominantes da história que a forçavam a negar tudo pelo o   que ela viveu, ou seja, das suas crenças e sua luta.  
            Entretanto, não era apenas trocas de palavras que estavam em jogo. Era a sua voz! O poder de contar a si e ao mundo o verdadeiro significado da sua existência. E agindo com tamanha envergadura entre o que se diz, pensa e faz seus princípios a acompanharam até a fogueira. E cada palavra dita e não dita morreram uma a uma até seu corpo acabar em cinzas.  
            Infelizmente para seus algozes não foi possível calar a voz de Joana D`Arc, pois, apesar de seu corpo ter sido violentamente destruído, sua história se alastrou, seguindo o rastro da reverberação de suas ideias e coragem, de tal forma que seu nome hoje é digno de sobrepujar seus oponentes a lama da imagem da ignorância.
        À luz da chama dessa fogueira é relevante questionar: você reconhece sua existência? Você dá voz a ela? Você acredita na sua voz? Ou talvez, o que é mais corriqueiro, já sentiu quando tentaram calar sua voz por ser mulher?
         As engrenagens sociais estão sempre armadas contra o posicionamento das mulheres no mundo. É possível sentir as linhas invisíveis, ou não, que conduzem os espaços sociais a disciplinar o silenciamento das mulheres ao longo da história. Não foram poucas as investidas para calar as mulheres e suas existências.  
         O terror praticado contra as mulheres durante a caça as bruxas na Europa pré-capitalista foi alicerce para a construção da nova função social das mulheres e na degradação de sua identidade social. O novo modelo de feminilidade para a mulher e esposa ideal, depois de dois séculos de terrorismo do Estado, era a presteza com as tarefas, ser passiva, obediente e calada. Portanto, não questionar a “natureza” de sua inferioridade perante os homens.
"Calibã e a bruxa", pág. 201

       A redefinição de papéis e ideologias, durante a transição entre o feudalismo e capitalismo, foi maximizada através da figura da “mulher resmungona” descrita repetidamente na literatura da época. Logo, a única forma de resistir diante das opressões se resumia a fala. E foi o ato de falar que mais uma vez foi silenciado através da violência. Mulheres que insistiam em contestar seus maridos eram castigadas publicamente com uma espécie de rédea de ferro na boca.
        O falar, a língua, foi um instrumento de insubordinação que passou a ser motivo de conotações depreciativas que taxam até hoje as mulheres como possuidoras de uma “língua afiada” feita supostamente apenas para fofocar. Quantas vezes já ouvimos brincadeiras em rodas sociais que atacam diretamente essa questão como ponto de hostilidade? 
        A comunicação entre homens e mulheres, numa grande parcela da sociedade, parece ser conduzida por um subtexto perverso e opaco aos insensíveis. É tão comum e tão tomado como verdade que não somente o falar das mulheres que é chacota. A sua voz não é ouvida!
    
      Joana D´Arc, voltando a nossa personagem, também foi silenciada numa chama perdendo sua vida, e o que mais fizeram, antes de condená-la a fogueira, foram infinitas perguntas num interrogatório que durou meses. Entretanto, o que menos eles queriam, era ouvi-la. Eles queriam eram ouvir dela as suas próprias palavras. Sua subordinação. Dominá-la!
      Quantas vezes nos vemos engolindo nossas palavras e nossas visões de mundo? Quantas vezes percebemos que falamos, falamos e falamos e não somos ouvidas? Quando impedem nossas palavras querem calar algo muito mais profundo, que é a nossa voz, nosso espaço e lugar no mundo. Querem nos calar a todo dia e a toda hora! Cabe a nós, transformarmos nossa voz em potência, em fogo, que não mais nos consome, mas que se alastra e contamina as demais mulheres. E que de nossas línguas, palavras e voz se faça o verdadeiro fogo!