Nativos Terra Rasgada
Resumo
Este artigo versa sobre a trajetória formativa, a prática teatral e o labor, de três artistas integrantes de um grupo de teatro de rua que, em meio às opções de formação e as condições estruturais que tiveram durante a infância e juventude, tornaram-se atriz e atores.
As entrevistas semiestruturadas revelam escolhas conscientes pela profissão e, que todos têm outro trabalho além do teatro. O antagonismo, trabalho formal versus prática artística, ganha outros significados nas experiências estudadas. O labor, é o sustento e também é a manutenção do desejo do artista que sonha em transformar sua prática em profissão.
Interessa ainda, observar a trajetória dos entrevistados tornando evidente alguns aspectos, como o primeiro contato com o teatro, a formação e a profissão que exercem hoje, na busca por compreender, se o teatro é ou não é trabalho para eles.
Palavras-chave: Arte na educação, Educação como Refúgio, Teatro, Trabalho.
Introdução
Primeiros movimentos
Este artigo analisa a trajetória de três sujeitos, uma mulher e dois homens, todos integrantes de um grupo de teatro de rua do interior do Estado de São Paulo que, escolheram ter a arte da encenação como profissão.
De modo geral, viver da atividade artística não é tarefa muito fácil, tão pouco uma condição exclusiva de nosso tempo. Mas, saber disso não exclui a modalidade, da lista de profissões almejadas por sujeitos que, ao optarem por ela, iniciam uma jornada que inclui melhoria de condições que permitam modificar o cenário.
Em Sorocaba, cidade com aproximadamente 700 mil habitantes, uma das maiores economias do Estado, a realidade posta não contribui para que a profissão de artista se efetive de fato. Não há políticas públicas instituídas que favoreçam este movimento, nem há instituições que façam os enfrentamentos desta questão, apenas um fórum permanente de cultura que, apesar de necessário e importante, me parece insuficiente para promover as transformações imprescindíveis.
Neste cenário, artistas se organizam em grupos e coletivos buscando construir sua existência no tempo (MELO, 2019), a exemplo do Nativos Terra Rasgada, que sobrevive às insurgências a quase dezessete anos. Na busca pela sobrevivência, os sujeitos propõem-se a praticar outras profissões além da escolhida atividade artística.
Sujeito e coletivo compõe a paisagem deste artigo. Por isso, analisamos as questões estruturais e as configurações onde: estrutura é uma perspectiva coletiva sobre a realidade dos sujeitos; e configurações são, a grosso modo, as questões particulares que compõe os enfrentamentos vividos pelos indivíduos. (Elias, 1994, p.48).
Deste modo, tomamos como ponto de partida, o primeiro contato dos três entrevistados com o teatro. Colhi relatos de suas primeiras experiências, não para linearizar suas vivências ou compor justificativas teóricas para sua jornada, mas sim buscando revelar seus enfrentamentos, suas trajetórias de vida, que até o presente momento, fizeram dos três indivíduos, artistas de teatro de rua.
Interessa ainda, saber como suas trajetórias corroboraram para que pudessem se reconhecer como artistas, deixando de lado o antagonismo e a dicotomia entre a arte e o trabalho.
Cenário geral
O Nativos, é um grupo de teatro de rua, nomeiam-se assim, apesar de realizarem trabalhos em quaisquer espaços, inclusive nos teatros convencionais.
Existe como grupo desde janeiro de 2003, quando, com o objetivo de formar um grupo de teatro que pudesse se tornar em fonte de renda, alguns jovens entre 16 e 21 anos se reúnem em uma praça pública no centro da cidade de Sorocaba. Na praça Frei Baraúna funcionava a Oficina Cultural Regional Grande Otelo – G.O.. Dos presentes naquele primeiro encontro, três permanecem no Nativos hoje.
Alguns daqueles jovens que compuseram o grupo em sua primeira formação, tinham aulas de teatro em sua escola, todos alunos de instituições públicas que começaram a dividir seu tempo, pós período de aula, com a prática teatral.
A formação do grupo foi se modificando rapidamente, e só se compôs depois da estreia de seu primeiro trabalho, em novembro do ano de fundação. Ainda assim, houveram diversos momentos de entradas e saídas de pessoas que contribuíram para que o Nativos seja o grupo que é hoje.
Pode-se dizer que há um núcleo duro no grupo, composto por três casais. Compuseram este núcleo em 2005. Além destes, três outros integrantes compõe o Nativos, seus ingressos foram em 2011, 2012 e 2019. Deste coletivo, elenquei três pessoas para tomar como objeto de investigação: Bruna Salatini, no grupo desde 2004; Tom Ravazoli, 2005; e Samir Jaime, 2011.
Dos nove integrantes que compõe o grupo hoje, Bruna Salatini, Juliana Prestes, Stefany Cristiny, Flávio Melo, Celso Stefano, Rodrigo Zaneti, Samir Jaime, Tom Ravazoli e Vitor Silva. Quatro, Juliana Prestes, Samir Jaime, Celso Stefano e Vitor Silva, não são graduados no curso de licenciatura em teatro da UNISO. Sendo que Vitor, cursa o último ano.
O curso em questão, licenciatura em teatro/arte-educação, tem como foco a formação de artistas educadores. Significa dizer que o aluno graduado neste curso tem um diploma que lhe permite a profissionalização de ator (riz), diretor (a) e professor(a) de arte.
A abrangência de áreas de atuação que o currículo do curso possibilita, contribuiu para que a totalidade dos integrantes do Nativos mantivessem a dupla profissionalização. Ainda na faculdade, vários alunos conquistaram seu primeiro emprego como professor (a) em escolas das redes públicas de ensino. Atividade que garantia um ganho fixo.
No percurso formativo pelo qual passaram os integrantes do Nativos na UNISO, a demanda de professores na área da educação, ainda que segundo plano na lista de desejo de emprego para a totalidade dos alunos da graduação em teatro, tornava-se uma possibilidade mais atraente economicamente. Por outro lado, a prática atoral 1 não se apresentava como opção de trabalho.
Deste modo, o desejo de ter o teatro como profissão, e a trajetória que fizeram, compôs uma realidade que não é exatamente o que imaginavam ter quando escolheram ser artistas.
Um sopro pelos trilhos da Sorocabana 2
Tom Ravazoli tem hoje 33 anos de idade, começou a fazer teatro quando tinha aproximadamente dez anos com sua professora da quarta série do ensino fundamental, em uma escola na cidade de Mairinque, interior de São Paulo. Relata entusiasmado, “apresentamos Os Saltimbancos para a formatura, eram quatro turmas e a quadra estava lotada, fiz o personagem principal. Nessa época a
professora gostava muito de mim...” (RAVAZOLI, 2018).
A experiência fez com que Tom se tornasse referência em sua escola, sendo lembrado e convidado a participar de diversas outras apresentações e atividades onde representava o colégio.
[...] esse estigma ficou em mim desde então, pois sempre que havia alguma coisa na escola, que tinha algum evento, ou montar uma peça de teatro, eu era chamado. Cheguei a carregar bandeira do
Brasil no lançamento do RG escolar, o RA na época. Foi o lançamento da região do polo de São Roque, porque Mairinque é dessa regional, faz parte da região. Cada aluno ficou responsável por
uma coisa, alguns iam carregar uma bandeira, ou receber o primeiro RG. Teve secretário do Estado presente. Na época o governador era o Mário Covas. Meu nome foi lembrado na escola por conta do
teatro. (RAVAZOLI, 2018).
Depois deste acontecimento na vida de Tom, ele continuou a fazer teatro, não só os trabalhos montados dentro das disciplinas que compunham a grade curricular, mas também integrando o grupo da escola que ensaiava e apresentava em horários alternativos, inclusive finais de semana.
O grupo de teatro da escola Estadual Maria de Oliveira Lellis Ito, Theatron, começa a realizar apresentações constantemente dentro da escola, o que atribui notoriedade ao grupo, que começa a apresentar também em eventos teatrais fora da escola, e até fora da cidade, fazendo com que o grupo se tornasse cada vez mais importante. Apesar disso,
[...] não havia nenhum espaço para apresentações na escola, mas depois da “fama”, do reconhecimento do grupo, houve um movimento para melhoria do espaço na escola. O Giovani conseguiu uma verba através da secretaria do estado de educação, mas ele conseguiu só
para material, então fizemos um mutirão na escola, e foi através das famílias: um pai que entende de elétrica; outro que sabe sobre construção civil... construímos com nossas próprias mãos o auditório
que tem o nome do Giovani. Já passou por reforma e existe até hoje. Esse grupo me permitiu uma experiência, atuar com minha mãe. Ela costura e ajudava muito com os figurinos. Na montagem de Dom Casmurro, uma das meninas saiu, e o Giovani a convidou para atuar. (RAVAZOLI, 2018).
A mobilização do professor, dos membros administrativos da escola, dos pais e dos alunos em prol da materialização de um espaço teatral dentro da escola, constitui-se como conduta exemplar que acentua a importância da realização desta prática teatral para a sociedade como um todo.
Quando terminou o ensino médio, Tom já havia trabalhado com seu pai na função de ajudante de jardineiro. E fez outros bicos como: vendedor de frutas em um caminhão que circulava pelas ruas; ajudante geral de uma pequena fábrica de caixas de som; e, concertando máquinas de costura em uma fábrica de langeries. Durante o ensino médio, frequentou dois cursos técnicos: um de
Mecânico de Usinagem em Maquinas Convencionais; e outro de Técnico em Informática. Quando concluiu os cursos e finalizou o colegial, prestou vestibular e foi aprovado no curso de Processamento de dados em Franca/SP, e Ciências da Computação em Presidente Prudente/SP. Por questões financeiras não fez a matricula em nenhum dos cursos que prestou e ficou sem estudar até 2005.
Tendo ficado sem estudar por dois anos, 2003 e 2004, seu professor e diretor teatral, Giovani, lhe falou sobre a graduação em Teatro/Arte-Educação da Universidade de Sorocaba – UNISO, curso que tinha acabado de abrir em Sorocaba. Tom fez vestibular e, como estava trabalhando, conseguiu iniciar as aulas em fevereiro de 2005. Depois de um Semestre cursando, conseguiu usar a pontuação
que tinha do ENEN, prestado em 2002, para fazer uso da bolsa ProUni.
Na faculdade, estudava na mesma sala que estavam quase todos os integrantes do Nativos. A proximidade com os Nativos foi inevitável, culminando no convite para compor o grupo em 2005. Sua atribuição inicial foi como músico, tocando no espetáculo As Relações Naturais, de Qorpo Santo. Posteriormente, atuou na peça A Romaria: Milagre na Manchester Paulista.
Quando entrei na universidade, a maioria dos integrantes do Nativos entraram na mesma turma que eu, sou da segunda turma de teatro na UNISO. Sem nenhuma pretensão acabei me aproximando, por
questão de afinidade, me aproximei mais dos integrantes dos Nativos do que o restante da sala. [...] eu tinha idade parecida, objetivos parecidos, então conheci melhor o Nativos, que nessa época estava no final de um processo com a peça, As Relações Naturais. Eu via eles falando desse processo e achei incrível. O que era, para mim, basicamente pegar texto e fazer teatro, a universidade e o Nativos me fizeram enxergar outra coisa, a importância e responsabilidade de fazer o teatro. (RAVAZOLI, 2018).
Com a montagem do segundo espetáculo citado, apoiado pela Lei de Incentivo à Cultura - LINC, e com a contemplação da bolsa da faculdade pelo PROUNI, Tom decide abandonar o trabalho e dedicar-se exclusivamente ao teatro.
Eu saí do trabalho para poder me dedicar mais ao teatro, e foi o período que entrei no Nativos. Portanto minha saída da empresa combinou na entrada no Nativos, que foi meu primeiro trabalho de
rua. Foi contemplado pela LINC - Lei de Incentivo à Cultura, meu primeiro cachê no Nativos, foi o que me ajudou a sair do emprego. Tinha contas ainda para pagar e morava em Mairinque ainda na
época. (RAVAZOLI, 2018).
Com a saída do emprego e as vindas constantes a Sorocaba, começa a dormir na casa dos amigos do grupo e, posteriormente na sede onde fica por aproximadamente dois anos. Quando começa a Namorar com Juliana, integrante do grupo também, passa praticamente a morar na cidade, até que isso efetivamente aconteça em meados de 2013.
Entre este período de saída do emprego e se estabelecendo em Sorocaba, Tom trabalhou como professor de teatro em escolas municipais, até se tornar coordenador pedagógico da empresa responsável pelo serviço. Mantinha ainda as atividades no Nativos, ensaiando e realizando apresentações.
Em meados de 2014, Tom assume a coordenação de um projeto de Educação para o trânsito, fruto de um contrato do Nativos com a prefeitura de Sorocaba. Função que ocupa até hoje, mas abandonou a coordenação de trabalho antigo e vive das apresentações e deste trabalho com o grupo, além de ministrar uma oficina semanal de iniciação musical em um sindicato e realizar trabalhos de
freelancer como ator e músico para grupos teatrais e musicais.
Na segurança também há incertezas
Bruna Salatini, tem 32 anos, a primeira experiência teatral se confunde com as brincadeiras de infância. Filha de professora, relata passagens com uma amiga onde criavam personagens e mostravam aos vizinhos.
[...] eu gostava muito de fazer apresentações, e não só de teatro. Quando eu era criança, era bailarina, apresentadora. Eu tinha uma amiga, e sempre ensaiávamos várias apresentações e saiamos batendo palma na casa dos vizinhos querendo vender ingressos para as apresentações. Então a gente ensaiava e queria que as crianças fossem lá assistir. A gente dançava, fazia peças, temos gravado até hoje. O pai dela tinha uma câmera, e a gente gravava vários programas de televisão, fazíamos cena, éramos apresentadores de tv, até desenhos, tipo bananas de pijama, ou ela era apresentadora e eu era a artista plástica convidada. Eu tinha sete anos na época. Mas não me lembro antes disso, de assistir peças, só sei que eu e essa amiga gostávamos muito de fazer isso e foi quando eu comecei a brincar com essas coisas... (SALATINI, 2018).
Nas brincadeiras de criança, Bruna já demostrava um olhar sobre a prática teatral que, de modo geral, se distingue da totalidade das pessoas, uma vez que mesmo na ingenuidade infantil, realiza a divulgação do espetáculo e cobra o valor do ingresso.
Durante a juventude seu contato com o teatro não se limitou às brincadeiras em casa com a amiga, realizava cenas para atividades escolares, trabalhos e atividades da disciplina de arte até começar a buscar aperfeiçoamento. O primeiro curso de teatro que eu fiz, foi a oficina do Mantovani, na
Grande Otelo. Não era bem um curso, era uma montagem já de um espetáculo, “O Despertar da Primavera”. Eu já fiz três juntos, que era esse “O Despertar da Primavera”, entrei em outro que era do Mario Persico, “o Anjo de Pedra”, e o outro era Galileu Galilei, mas desisti, fiz tudo, mas não cheguei a apresentar. (SALATINI, 2018).
Não se apresentou nem concluiu o curso que fazia no Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério – CEFAM, “porque meu pai conseguiu um emprego, no Paraná e eu tive que ir junto” (Salatini, entrevista 2018). Mesmo assim, Bruna destaca que as apresentações teatrais no SEFAM eram sérias, “[...] no começo do ano já tinha que preparar, porque era um espetáculo mesmo, não era nada simples” (iden, ibden).
Tendo concluído o ensino médio no Paraná, Bruna volta para Sorocaba por conta da transferência do pai. Imediatamente ingressa na primeira turma de licenciatura em Teatro da Universidade de Sorocaba – UNISO em 2004.
No primeiro ano de faculdade, conhece alguns integrantes do grupo que estavam em sua turma, iniciando ali uma ligação com o Nativos. Mas foi por conta de seu trabalho como iluminadora que recebeu o convite para realizar o designer e operar a iluminação de um espetáculo, As Relações Naturais, 2004/2005. Durante a temporada, uma das atrizes sai do grupo e Bruna se integra efetivamente. Com sua entrada na licenciatura em teatro, os alunos podiam realizar sua inscrição na Secretaria de Estado da Educação para ministrar aulas de arte, nas escolas públicas.
Quando eu entrei na UNISO, já queria dar aula, porque estava sem dinheiro. Abriu inscrição e eu fiz, não tinha nem 18 anos ainda. Quando fiz 18 anos, comprei uma moto, para ir para Itu dar aula, lá
em Salto de Itu. (SALATINI, 2018).
Ministrou aulas como professora substituta, depois teve atribuição de algumas aulas até que foi aprovada e efetivada como professora a partir de concurso público estadual. Pouco tempo depois, passa em novo concurso e acumula dois cargos como professora. Além disso nunca deixou de atuar no Nativos e, por vezes, ainda cozinhava quitutes para vender.
Mais sorte do que juízo
Samir Jaime, 39 anos, também tem o primeiro contato com teatro na escola, na aula de artes vendo uma cena realizada por sua professora que tinha um affair com o teatro,
[...] uma vez ela levou uma cena que ela fazia, bem dramática. Com os alunos do quinto ano ela trabalhava muito teatro, trabalhava máscara e eu adorava ver. Como ela tinha essa veia, queria ser
artista, mas aquela é a profissão da TV. Eu lembro exatamente, foi esse o momento que decidi fazer isso para minha vida. Aquele momento foi o gatilho, o ponto foi uma das aulas que ela mandou a
gente pensar cenas, e eu pensei uma cena para o nosso grupo, era para fazer o jornal. Cada grupo tinha que fazer o jornal, eu era o repórter do jornal, eu lembro que eu peguei uma peruca que eu nem
lembro da onde tirei aquela peruca. Fiz uma voz diferente... bem que lembrava muito cara do “Loucademia de polícia”, eu fiz aquela cena entrevistando. E eu lembro da cena eufórica, e depois que acabou, ela falando sabe - que da hora! Nossa, muito bom! - Era tudo que eu pensei, e ela disse que eu tinha que fazer isso, que eu tinha muito jeito para essas coisas. Eu lembro disso porque ela falou aquilo e ficou na minha cabeça. Eu estava no quinto ano, eu tinha uns 10 ou 11 anos naquele momento. Parece que alguma coisa ligou e disse assim para mim - Olha é possível fazer isso, é possível que isso seja o que você vai fazer da sua vida. - E depois, aquilo não saiu mais da minha cabeça. (JAIME, 2018).
A experiência teatral vivenciada quando criança marcou sua vida. Depois da cena apresentada pela professora na escola, Samir passou a fazer todas as atividades artísticas de todas as disciplinas para apresentações de trabalhos. Mesmo com a disposição para as atividades artísticas, reprovou duas vezes de série e no início do terceiro ano do ensino médio, foi diagnosticado com um câncer, e
passa a dedicar-se exclusivamente ao tratamento até se curar definitivamente.
Quando teve alta, lamentou “acabei perdendo este ano. Na volta, eu já estava velho, não tinha mais paciência por ter perdido um ano, todos meus colegas já tinham saído, aí eu acabei optando por terminar o ensino médio no supletivo”. (Jaime, entrevista, 2018).
[...] quando eu terminei o ensino médio tinha a ideia de fazer uma faculdade de teatro, mas a faculdade de teatro em porto alegre é só Federal. E a federal era aula ensino integral, não tem só a noite por exemplo, e eu não tinha como fazer porque eu precisava trabalhar, precisava trabalhar para ajudar em casa. (JAIME, 2018).
A trajetória do Samir com o teatro não se distingue da sua relação com o trabalho e com a educação. Como seus pais eram proprietários de uma lanchonete, ele trabalha desde muito jovem o que o levou a buscar sua independência financeira. Com a separação de seus pais e o ingresso em um emprego fixo de almoxarife de um hospital, resolve retomar o sonho de fazer teatro.
[...] eu recém tinha começado a trabalhar, me lembro que olhando os classificados no jornal, vi uma oficina de teatro. O valor acessível na época. Mas eu não podia ir todos os sábados, não conseguiria ir nas primeiras aulas porque a minha mãe estava se mudando, ela estava morando em Farroupilha e eu fiquei um ano morando com a minha vó. Ela voltou bem nessa data e eu perdi as primeiras aulas, precisei ajudar na mudança. E aí, eu liguei no lugar e a pessoa disse que eu podia ir, porque as primeiras aulas eram mais para apresentação, que não teria problema. Eu fui para a oficina. (JAMIE, 2018).
Desta oficina, surge o grupo teatral Manjericão que foi se constituindo na cidade com vendas de trabalhos de palhaços e de espetáculos. Samir vê renascer o sonho de se tornar ator, o que não durou muito. Sem conseguir se sustentar com apresentações, Samir realizava serviços de freelancer editando vídeos. O teatro e o trabalho permeavam as decisões importantes de sua vida, como fala em tom alívio.
[...] comecei a trabalhar num lugar muito ruim, e chegou uma hora que eu desisti dessa ideia de ser ator. Eu me lembro de discutir com minha mãe sobre isso, queria voltar fazer um curso técnico, eu
procurava coisas que sempre o teatro estava de fundo, como eu não podia largar ele, eu procurava coisas que me permitissem fazê-lo. Decidi largar mesmo, procurar algo que possa me servir para o
futuro, procurar um emprego. Sabia que quando fosse mais velho seria frustrado por não ter feito o que queria, mas segui. E no mesmo dia que tomei essa decisão, o Marcio me liga, perguntando se eu
topava dar umas oficinas de teatro, e eu nunca tinha dado aula de teatro, muito menos para crianças. Eram aulas para crianças no bairro Restinga, um bairro super longe em Porto Alegre, extremo Sul
de Porto Alegre. Como estava sem trabalho eu topei, pensei que logo ia desistir disso, surge uma forma de trabalhar e permear o teatro,então topei. (JAIME, 2018).
Ministrando oficinas de teatro e atuando, se manteve no Manjericão até final de 2010. Em uma apresentação na Mostra de Teatro de Rua Lino Rojas na cidade de São Paulo/SP, 2009, conhece o Nativos Terra Rasgada e em 2011 muda-se para Sorocaba. Na nova cidade, mescla seu tempo entre a atuação, edição de vídeos e oficinas de teatro.
No Nativos, além de atuar nos espetáculos, Samir trabalhou como arte educador no projeto de educação para o trânsito e atualmente presta serviços de arte finalista.
RUA SEM SAÍDA
São muitos os aspectos que colocam a prática teatral, a formação e o labor em uma espécie de linearidade histórica, como se a Bruna, por exemplo, já tivesse nascido para ser professora de arte e atriz, ou o Tom, que apesar de, hoje, não ministrar aulas de teatro, mas atua e coordena um projeto de educação, estivesse destinado a isso. Não é assim que os percebo.
Quando Ernest Fisher (1973), fala que a arte é uma atribuição necessária para constituir a humanidade, quando Spolin (2005) afirma que ninguém ensina nada a ninguém e todos aprendemos a partir de nossas experiências, compreendo melhor as vivências aqui abordadas.
Tom, Bruna e Samir, tiveram na escola uma experiência de apreciação e experimentação estética, viram despertar neles próprios, aquilo que Fischer (1973,p.12), descreve sobre a essência do ser humano.
É claro que o homem quer ser mais que apenas ele mesmo. Quer ser um homem total. Não lhe basta ser um indivíduo separado; além da parcialidade da sua vida individual, anseia uma “plenitude” que
sente e tenta alcançar, uma plenitude de vida que lhe é fraudada pela individualidade e todas as suas limitações; uma plenitude na direção da qual se orienta quando busca um mundo mais compreensível e mais justo, um mundo que tenha significação. (FISHER, 1973, p.12. Grifos do autor).
Experiênciar a arte pode revelar um novo mundo, um mundo de possibilidades que a realidade não contempla, não disponibiliza. Como afirma Spolin (2005), ao experimentar vivemos, e ao viver sentimos e pensamos essa existência. Passamos a projetar uma realidade diferente da que está posta, uma realidade possível, e é assim que aprendemos, e ao aprender, movimentamo-nos com a
intenção de mudar.
Observa-se diversos movimentos nas trajetórias dos sujeitos, desde o seu contato inicial com o teatro até hoje, mesmo já tendo passado por processos formativos e até feito as escolhas com relação à profissão, que buscam criar fissuras na realidade para possibilitar novas experiências por intermédio da arte. Dizendo a mesma coisa de outro modo, as práticas profissionais e os modos de vida dos
entrevistados sofrem frequentes adaptações para possibilitar que possam continuar a fazer teatro.
Ainda tomando Fisher (1973) como referência, a necessidade da arte toca pontos tão repelidos pela sociedade que para algumas pessoas chegam a chamar a possibilidade da prática artística, de sonho.
As empolgações relatadas por eles durante seu contato com o teatro não dão conta de revelar, por exemplo, os enfrentamentos e as concessões que fizeram em prol de conquistarem o direito e construírem as condições estruturais para permanecerem com a prática artística.
Retomando as palavras do Samir, por exemplo, fica claro as constantes adaptações que teve de fazer em seus trabalhos, as vezes até abrindo mão deles, em sua relação familiar e, de modo geral nos seus planos de vida, mas o que não mudou, foi sua necessidade de fazer teatro.
[...] eu tinha planos para viajar para a Europa. Eu queria ir para lá, na minha mente jovem, a minha ideia de ir para lá para trabalhar. Na minha mente, eu trabalharia uns cinco anos, ia juntar uma grana, ajudaria minha mãe, voltaria e poderia fazer o que quisesse, poderia fazer teatro. Essa era a mentalidade. Eu lavaria pratos, são essas coisas que brasileiros fazem por lá, são essas coisas que a gente pensa. Nesse meio tempo, se eu conseguisse fazer teatro, seria legal porque se eu voltasse, poderia falar que eu tinha feito teatro lá, eu ia virar chique. Só pensava que quando voltasse, iam me pagar uns mil reais por minha oficina. (JAIME, 2018).
Por motivos diversos, opções pouco prováveis são adotadas quando se está contaminado pela praga do teatro. Como nos ensina Artaud (2006), há no teatro uma capacidade de sobrevivência e coragem desafiadora que permeia a falta de lógica, desafia a racionalidade, mas efetiva-se em meio às catástrofes devastadoras. Enquanto as imagens da peste em relação com um poderoso estado
de desorganização física são como os derradeiros jorros de uma força espiritual que se esgota, as imagens da poesia no teatro são uma força espiritual que começa sua trajetória no sensível e
dispensa a realidade. Uma vez lançado em seu furor, é preciso muito mais virtude ao ator para impedir-se de cometer um crime do que coragem ao assassino para executar seu crime, e é aqui que, em sua gratuidade, que a ação de um sentimento no teatro surge como algo infinitamente mais válido do que a ação de um sentimento realizado. Diante do furor do assassino que se esgota, o furor do ator trágico permanece num círculo puro e fechado. O furor do assassino realizou um ato, ele se descarrega e perde contato com a força que o inspira, mas que não mais o alimentará. Esse furor assumiu agora uma forma, a do ator, que se nega à medida que se libera, se funde na universalidade. (ARTAUD, 2006, p.21).
Mesmo que pareça cruel, a imagem que compõe a trajetória destes sujeitos do grupo teatral Nativos Terra Rasgada, e por assimilação, sujeitos artistas, estudantes e trabalhadores da arte de modo geral, é do artífice que se alimenta da ação não efetivada, mas que está sempre na eminência do por vir.
Na prática artística profissional, seja lá o que isso possa significar efetivamente, uma vez que se trata de uma não realidade, a esperança renova-se a cada projeto, a cada espetáculo, a cada edital. Renova-se no sentido de tornar realidade o trabalho em si, mas também materializar seu esforço em remuneração. Não alcançar uma destas opções, ao mesmo tempo que pode causar certa frustração, também renova a energia para a tentativa seguinte.
A questão em voga, desde o primeiro experimento teatral, no processo formativo e na prática profissional, é o sonho.
Das trajetórias abordadas, resenho: Samir conheceu o teatro na escola, começou a sonhar em ser ator, mas nunca quis ser professor. Na sua trajetória, aceitou o desafio de ministrar aulas de teatro, mesmo sem ter uma formação acadêmica e hoje afirma gostar muito de dar aula. Pratica apresentações em meios à rotina de aulas.
Bruna, brincava de fazer teatro com sua amiga em casa, mas cresceu e vislumbrou a carreira de professora. Iniciou o magistério e ao término do ensino médio conjunto, viu o teatro renascer e tornar-se possibilidade de profissão para ela. Diz que o curso de licenciatura em teatro era a justificativa perfeita para sustentar sua escolha profissional.
Tom, encarou o teatro na infância e na adolescência como uma atividade complementar e recreativa, nunca como opção de trabalho. Chegou a passar em dois vestibulares de universidades públicas, mas quando foi provocado a cursar teatro, encontrou-se. Não ministra aula de teatro, mas coordena um projeto de educação dentro do Nativos.
Fazem teatro os trabalhadores da educação? Ou educam os artistas com seus trabalhos?
Depois desta pesquisa, tendo a compor uma resposta correlacionada em concordância com Segnini (2000, p.1), parafraseio-a desta forma: O teatro, a “educação e trabalho, compõe uma relação tão necessária quanto insuficiente”.
Referências
Martins Fontes, 2006.
Elias, Norbert. A Sociedade dos Indivíduos. Tradução de Ribeiro V.. Rio de
Janeiro: Zahar, 1994.
FISCHER, Ernest. A Necessidade da Arte. Tradução de Leandro Konder. Rio de
Janeiro: Zahar, 1973.
JAIME, Samir. Entrevista. Sorocaba/SP: Nativos Terra Rasgada 2018.
Marx, Karl. O Capital. Tradução de Ronaldo Alves Schmidt. Rio de Janeiro: Zahar,
1982.
Masi, Domênico de. Ócio Criativo. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2000.
SALATINI, Bruna. Entrevista. Sorocaba/SP: Nativos Terra Rasgada 2018.
SPOLIN, Viola. Improvisação para o Teatro. Tradução de Ingrid Dourmien
Koudela. São Paulo: Perspectiva, 2005.
RAVAZOLI, Tom. Entrevista. Sorocaba/SP: Nativos Terra Rasgada 2018.
Mestre em Educação, Universidade Federal de São Carlos, Sorocaba,
flaviomelo@nativosterrarasgada.com.br, Grupo de estudos: Grupo Gerações,
percursos de vida e processos educativos, https://orcid.org/0000-0002-2777-6998
1 Referente ao ator.
2 2 Sorocabana é o nome da estrada de ferro que liga Sorocaba ao porto de Santos, passando por
Mairinque, torna-se o símbolo da cidade.

Nenhum comentário:
Postar um comentário