terça-feira, 9 de junho de 2020

DENUNCIEI! por GUILHERME VELOSO



@caikefotografia

     Hoje eu decidi compartilhar um fato que aconteceu comigo há umas semanas atrás. Como alguns de vocês sabem, sou estudante do 9º semestre de psicologia na Universidade Paulista de Sorocaba e enquanto estava cumprindo uma atividade no site da faculdade, encontrei uma pergunta de genética humana que abordava o tema “miscigenação” e questionava qual seria o resultado de um cruzamento entre um indivíduo de pele branca e um indivíduo de pele preta. Nas alternativas me deparei com: a) Mulato. 

SIM, MULATO.

     Acredito que, em pleno 2020, todos e todas já deveríamos saber a origem desse termo. Mas, caso alguém ainda não esteja ciente: é uma palavra de cunho racista. “Mulato” vem de “Mula”, animal resultante do cruzamento visto como “impróprio” entre um cavalo e uma jumenta. Por isso, essa palavra começou a ser usada no período da escravidão para designar filhos de escravas que eram fruto de estupros dos senhores de engenho. Inclusive, vale citar que por muito tempo, graças ao racismo cientifico e pensadores racistas assim como o Linneu (Carl Nilsson Linnæus), pensava-se que os “mulatos” eram inférteis, assim como as mulas também são.

     Esse fato nos faz perceber como o racismo está sempre presente no dia a dia, mesmo que de forma sutil. Nem sempre ele chega escancarado, numa ofensa direta, num comportamento segregacionista. Às vezes ele tá ali, numa palavrinha escondida e que passa despercebida pela maioria das pessoas – algumas por não conhecerem, algumas por não se importarem.

     Silvio Almeida, em seu livro “Racismo Estrutural”, afirma: “consciente de que o racismo é parte da estrutura racial e, por isso, não necessita de intenção para se manifestar, por mais que calar-se diante do racismo não faça do indivíduo moral e/ou juridicamente culpado ou responsável, certamente o silêncio o torna ética e politicamente responsável pela manutenção do racismo. 
       
     A mudança da sociedade não se faz apenas com denúncias ou com repúdio moral do racismo: depende, antes de tudo, da tomada de posturas e da adoção de práticas antirracistas”.

     É inadmissível que, em tempos atuais, o racismo seja perpetuado por instituições de ensino onde existem pessoas aptas e com acesso à informação, de modo que também é inaceitável que alguém nessas condições tenha formulado essa questão e a palavra ainda tenha passado despercebida numa avaliação/revisão posterior antes de ir para o ar. Pensando nisso, juntamente com as minhas angústias e vivências diárias em 21 anos de vida enquanto homem preto, resolvi não me calar diante dessa situação que seria “singela” ao olhar de muitos.

DENUNCIEI.

     Denunciei porque considero importante que sejamos ativos quando se trata de sermos antirracistas. Eu compreendo quando dizem que é cansativo ficar ensinando os brancos a não serem racistas, é cansativo entregar tudo mastigadinho, explicar 1, 2, 3 vezes. De fato, é. Mas eu julgo ser importante compartilhar, pois como bem disse o psicólogo Lucas Veiga (@veigalucas_), no Fantástico no último domingo: “É muito importante que as pessoas que sofrem essa violência, tenham condições de elaborar essa violência, de falar sobre ela com outras pessoas. Quando uma pessoa negra é tratada como um animal é desumanizada, uma forma de matar no sentido de valor próprio da pessoa. Uma forma de matar a identidade negra que a pessoa a duras penas constrói para si.” 

     Como nos lembra Linn da quebrada (@linndaquebrada) em um dos trechos de sua música “quando não se tem memória, se repete a velha história”.

     A UNIP excluiu a questão e substituiu por outra. E aqui está o motivo pelo qual decidi expor esse fato: nós podemos ser agentes de mudança. Não tenham medo de denunciar, de falar sobre, de cobrar das pessoas e das instituições. O que eles mais querem é o nosso silêncio e a nossa obediência.

Não se calem!

     Por compreender que caminhos não se constroem sozinhos, deixo aqui meus agradecimentos as pessoas que me acolheram e fortaleceram meu “corre”. 

    Quero agradecer a @frangmnz por acolher tão cuidadosamente e precisamente a minha angústia além de compartilhar das dores desse processo, e por colaborar efetivamente com sua experiência em redação. As amigas, educadores e advogade que me incentivaram, orientaram, respaldaram e me fortaleceram para compartilhar esse relato. A bióloga @karina_ketlyn pela amizade, ensinamentos, construções, trocas e estudos. Ao queridíssimo psicólogo @danilogomes_psi @macumbaria pela afetividade, carinho, sensibilidade, trocas, vivências, fortalecimentos e de me lembrar das lutas emancipatórias e principalmente, das pessoas dessas lutas. Ao fotógrafo @oxicaike_ @caikefoto @caikefotografia , profissional incrível que tanto trocou como também editou a foto acima. A minha terapeuta @gabicspsi, por tudo que construímos juntos e por todo suporte de sempre. Muito obrigado!

Deixo aqui algumas indicações de suma importância: o vídeo da Nátaly Neri @natalyneri no TEDx: A mulata que nunca chegou. Os vídeos do Thiago Torres @chavosodausp , os livros e textos da Djamila Ribeiro, Racismo estrutural de Silvio Almeida, A Crítica da razão negra de Achille Mbembe, o quadro Redenção de Cam, as músicas da Linn e o filme Vênus negra.

Guilherme Veloso é integrante da Companhia de Eros desde 2016.

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