@caikefotografia
Hoje eu decidi compartilhar um
fato que aconteceu comigo há umas semanas atrás. Como alguns de vocês sabem,
sou estudante do 9º semestre de psicologia na Universidade Paulista de Sorocaba
e enquanto estava cumprindo uma atividade no site da faculdade, encontrei uma
pergunta de genética humana que abordava o tema “miscigenação” e questionava
qual seria o resultado de um cruzamento entre um indivíduo de pele branca e um
indivíduo de pele preta. Nas alternativas me deparei com: a) Mulato.
SIM, MULATO.
SIM, MULATO.
Acredito que, em pleno 2020,
todos e todas já deveríamos saber a origem desse termo. Mas, caso alguém ainda
não esteja ciente: é uma palavra de cunho racista. “Mulato” vem de “Mula”,
animal resultante do cruzamento visto como “impróprio” entre um cavalo e uma
jumenta. Por isso, essa palavra começou a ser usada no período da escravidão
para designar filhos de escravas que eram fruto de estupros dos senhores de
engenho. Inclusive, vale citar que por muito tempo, graças ao racismo
cientifico e pensadores racistas assim como o Linneu (Carl Nilsson Linnæus),
pensava-se que os “mulatos” eram inférteis, assim como as mulas também são.
Esse fato nos faz perceber
como o racismo está sempre presente no dia a dia, mesmo que de forma sutil. Nem
sempre ele chega escancarado, numa ofensa direta, num comportamento
segregacionista. Às vezes ele tá ali, numa palavrinha escondida e que passa
despercebida pela maioria das pessoas – algumas por não conhecerem, algumas por
não se importarem.
Silvio Almeida, em seu livro “Racismo
Estrutural”, afirma: “consciente de que o racismo é parte da estrutura
racial e, por isso, não necessita de intenção para se manifestar, por mais que
calar-se diante do racismo não faça do indivíduo moral e/ou juridicamente
culpado ou responsável, certamente o silêncio o torna ética e politicamente
responsável pela manutenção do racismo.
A mudança da sociedade não se faz
apenas com denúncias ou com repúdio moral do racismo: depende, antes de tudo,
da tomada de posturas e da adoção de práticas antirracistas”.
É inadmissível que, em tempos
atuais, o racismo seja perpetuado por instituições de ensino onde existem
pessoas aptas e com acesso à informação, de modo que também é inaceitável que
alguém nessas condições tenha formulado essa questão e a palavra ainda tenha
passado despercebida numa avaliação/revisão posterior antes de ir para o ar.
Pensando nisso, juntamente com as minhas angústias e vivências diárias em 21
anos de vida enquanto homem preto, resolvi não me calar diante dessa situação
que seria “singela” ao olhar de muitos.
DENUNCIEI.
Denunciei porque considero
importante que sejamos ativos quando se trata de sermos antirracistas. Eu
compreendo quando dizem que é cansativo ficar ensinando os brancos a não serem
racistas, é cansativo entregar tudo mastigadinho, explicar 1, 2, 3 vezes. De
fato, é. Mas eu julgo ser importante compartilhar, pois como bem disse o
psicólogo Lucas Veiga (@veigalucas_), no Fantástico no último domingo:
“É muito importante que as pessoas que sofrem essa violência, tenham condições
de elaborar essa violência, de falar sobre ela com outras pessoas. Quando uma
pessoa negra é tratada como um animal é desumanizada, uma forma de matar no sentido
de valor próprio da pessoa. Uma forma de matar a identidade negra que a pessoa
a duras penas constrói para si.”
Como nos lembra Linn da quebrada
(@linndaquebrada) em um dos trechos de sua música “quando não se tem memória,
se repete a velha história”.
A UNIP excluiu a questão e substituiu por outra. E aqui está o motivo pelo qual decidi expor esse fato: nós podemos ser agentes de mudança. Não tenham medo de denunciar, de falar sobre, de cobrar das pessoas e das instituições. O que eles mais querem é o nosso silêncio e a nossa obediência.
Não se calem!
Por compreender que caminhos
não se constroem sozinhos, deixo aqui meus agradecimentos as pessoas que me
acolheram e fortaleceram meu “corre”.
Quero agradecer a @frangmnz por acolher
tão cuidadosamente e precisamente a minha angústia além de compartilhar das
dores desse processo, e por colaborar efetivamente com sua experiência em
redação. As amigas, educadores e advogade que me incentivaram, orientaram,
respaldaram e me fortaleceram para compartilhar esse relato. A bióloga
@karina_ketlyn pela amizade, ensinamentos, construções, trocas e estudos. Ao
queridíssimo psicólogo @danilogomes_psi @macumbaria pela afetividade, carinho,
sensibilidade, trocas, vivências, fortalecimentos e de me lembrar das lutas
emancipatórias e principalmente, das pessoas dessas lutas. Ao fotógrafo
@oxicaike_ @caikefoto @caikefotografia , profissional incrível que tanto trocou
como também editou a foto acima. A minha terapeuta @gabicspsi, por tudo que construímos
juntos e por todo suporte de sempre. Muito obrigado!
Deixo aqui algumas indicações
de suma importância: o vídeo da Nátaly Neri @natalyneri no TEDx: A mulata que
nunca chegou. Os vídeos do Thiago Torres @chavosodausp , os livros e textos da
Djamila Ribeiro, Racismo estrutural de Silvio Almeida, A Crítica da razão negra
de Achille Mbembe, o quadro Redenção de Cam, as músicas da Linn e o filme Vênus
negra.
Guilherme Veloso é integrante da Companhia de Eros desde 2016.

Arrasou Gui. Cansa. Mas estamos juntos. Arregaçar as mangas !!
ResponderExcluirMuito relevante e informativo!!! Parabéns Gui!!!
ResponderExcluirMARAVILHOSO !
ResponderExcluirMuito bom! Parabéns ( ˘ ³˘)♥
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