terça-feira, 16 de junho de 2020

A BRAVA, UMA PERCEPÇÃO E UM SENTIR

Foto: Meire Garcia         
        Neste domingo (08/12/2019) fui convidado para assistir a uma peça de teatro a céu aberto aqui na cidade de São Roque. Fui, confesso, sem muitas expectativas do que iria encontrar, um pouco por não conhecer ainda o grupo que iria se apresentar, Companhia de Eros, outro tanto por nunca ter tido a oportunidade de assistir uma apresentação a céu aberto como a que estava sendo proposta.
Já assisti outras apresentações em praças, com atores, atrizes, palhaços mambembes em meio ao povo que atravessa estes espaços seguindo seus afazeres cotidianos, mas acabam parando casualmente para assistir ao espetáculo antes de continuarem suas tarefas e preocupações, quase como se repentinamente pudessem dar uma pausa na própria vida, para levantar o véu de um espaço mágico, em que por um breve instante pudessem voltar a ser eles mesmos. Sem preocupações, sem pressa, revendo rapidamente uma infância fugidia mas nunca esquecida.
          Apesar destas manifestações culturais terem sua magia, no caso a proposta era outra, mais estruturada, a começar pela escolha do local, que apesar de ser aberto e público, não era um espaço de circulação de pessoas, por lá não existiriam caminhantes incautos sendo pegos de surpresa por algo que desconheciam, quem lá se encontrava estava por escolha, procurando outro tipo coisa, procurando por uma história a ser ouvida. E devo dizer que isso foi exatamente o que encontramos: uma história que merecia ser contada.
          Fui sabendo apenas o nome geral, que ainda desconhecia se era da peça ou do grupo… “A Brava”… Apenas lá chegando é que descobri que se tratava do nome da peça em questão: a vida de Joana D´Arc. Ressalto isto apenas para frisar o tanto que eu me encontrava aberto e destituído de qualquer tipo de expectativa prévia quanto ao espetáculo que iria assistir. Fui esperando descobrir o que viria…
          Sentei na beira da antiga plataforma, (que já assistira certamente muitos passageiros subindo e descendo de comboios no passado…), sentindo uma leve ansiedade e me perguntando como aquele espaço poderia ser utilizado para uma apresentação de teatro, já que para mim era um corredor sem paredes, mas muito bem delimitado pelos trilhos e pelas duas plataformas, uma de cada lado, que agora se achavam ocupadas por pessoas quem talvez na mesma expectativa que eu carregava.
          Onde se encontrava o palco? Para onde seria dirigida minha atenção? Para qual lado do público, sentados frente a frente, seria dirigida a fala? Sim, creio já ter ficado claro que não sou de fato alguém do teatro, apesar de apreciar muito esta arte.
          Em meio a essa expectativa, ouço o sinal de atenção, chamando para o inicio dos trabalhos, e repentinamente, sem precisar de maiores explicações, em apenas uma primeira fala, entendo como o espaço foi pensado e distribuído.
          E mais que isso, entendo num momento onde reside de fato a magia do teatro…
Percebo que não é preciso um palco, pois o palco é onde estão os atores, eles que fazem o espaço, não o espaço que os rege. Percebo para onde a fala é dirigida, para fora, para o mundo, não para um ponto específico, já que, como noto, o próprio público sentado ao redor dos trilhos e da plataforma se tornou parte do espetáculo, interagindo, acompanhando, dando corpo à narrativa.
          A magia do teatro reside nas pessoas. E isto eu percebi pois senti que me afeiçoei aos atores e atrizes desde o primeiro movimento, já que eu conseguia perceber as pessoas para além dos personagens. Ao mesmo tempo em que percebia a vida dos personagens falando através dos atores e das atrizes. E mais que isto, através destes eu consegui ouvir e sentir a história sendo contada.
          Já conhecia a história de Joana D´Arc, pelos livros. Creio no entanto, ter percebido que o teatro é isto, contar uma história não apenas relatando fatos, mas tornando vivo o que é relatado.  Neste sentido o grupo Companhia de Eros, foi muito feliz em seu trabalho. 
      A Brava, Uma percepção e um sentir. Me levando a perceber o quanto os mesmos enfrentamentos e crises de ontem se encontram presentes hoje. Da mesma forma como ainda se reproduzem as lutas, traições, mentiras, resistência, e coragem do passado da humanidade.
       Considero um privilegio ter vivenciado o contar desta história e sinceramente, agradeço.

Nairan Ballesta
São Roque,  21/12/2019

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