Foto: Giulia Baptistella
A
Companhia de Eros já completou a primeira década de existência. Chuva oblíqua, referência ao poema de
Fernando Pessoa, foi seu primeiro espetáculo, que estreou em fevereiro de 2010
no Centro Cultural Brasital, em São Roque (SP). Nesses anos, sempre sob a
direção de Lisa Camargo, as produções foram marcadas por muitos aprendizados em
investigações e linguagens cênicas. A peça levada ao público atualmente é A Brava, que conta a história de
Joana d’Arc por meio de uma encenação em que o espectador pode notar
referências ao contexto sociopolítico atual. As disputas pelo poder, em particular
a tendência do apagamento dos feitos das mulheres e a violência a elas
dirigida, são apenas algumas das visões em um panorama que remete ao nosso
cotidiano.
Joana
d’Arc, valendo-se de imensa coragem, veste-se de homem e vai à guerra. Em
defesa da França, mesmo tendo acirradas vitórias no campo de batalha, acaba
sendo condenada pelo tribunal da Santa Inquisição. O seu castigo é morrer
queimada. Não há spoiler aqui,
imagino, tão conhecida se tornou a figura de Joana d’Arc.
Essa
encenação é também uma homenagem à Brava Companhia, um grupo paulistano de
teatro cujos atores são filhos de trabalhadores da periferia. Faz mais de 20
anos que esta companhia tem uma reconhecida expressão teatral militante pela
arte e pelo acesso a bens culturais em bairros pobres do sul de São Paulo. Para
incrementar suas produções, os integrantes da Brava dedicam-se a estudos e
debates, entre outras temas, sobre mercado, poder, Estado, dominação, luta de
classes, religião. Desse modo, aprimoram o entendimento sobre a função social
do teatro, do que essa potencialidade artística, mediante uma perspectiva de
assombro diante da realidade, é capaz de trazer para si e para a população
daquelas localidades.
Ainda
que em uma precária comparação, um espectador deixar de estar, por umas horas,
passivo diante de uma tela da televisão ou obcecado pelo celular e sentir, bem
ali de perto, uma peça que lhe incite a questionamentos abre uma possibilidade
de reinvenção. É um convite à vida pulsante, sensível e inteligente. É uma
fresta que se abre para um novo modo de articular as palavras e o discurso, a
prestar atenção numa história que se conta de outro modo, instigante por seus
muitos recursos de ênfase, movimentação, figurino, música. Enfim, a magia que o
teatro costuma despertar, a ampliação na produção de significados por parte dos
espectadores.
De tal modo que a Brava Companhia decidiu manter-se
nos espaços periféricos – não foi, por exemplo, integrar outro circuito com a
finalidade de apresentar uma peça de sucesso.
A escolha é, portanto, realçar o aspecto político da arte.
Provocação,
força expressiva e engajamento social poderiam ser o resumo de palavras-chave
que ficou na mente de Lisa Camargo quando viu pela primeira vez, por meio
audiovisual, a peça A Brava.
Logo movimentou o desejo de trabalhá-la com seu grupo e, depois das combinações
fechadas, pôde fazer a adaptação. A diretora refletiu diante de suas próprias vivências
em contato com a arte e as de seu público. Com seu olhar diligente, Lisa
orquestrou uma encenação mais enxuta, completando uma hora de apresentação.
Com
seu olhar diligente, Lisa orquestrou uma encenação mais enxuta, completando uma
hora de apresentação. A busca de um local propício não gerou, dessa vez, tanta
ansiedade, porque houve uma experiência anterior. Em 2018, a Companhia de Eros
ensaiava Opa, mais uma vez!,
inaugurando uma fase de pesquisa do teatro épico. E foi saudada por um
acontecimento feliz ao encontrar a antiga estação de trem de São Roque (SP)
como espaço para as exibições. A céu aberto, houve o “encontro do nosso lugar”,
em que o conjunto de atores flagrou o sentir de “heureca”, ali onde havia a
colaboração de muitos fatores para conseguirem destravar qualquer impasse: o
espaço corredor. Esse ambiente não
convencional propiciou as mesmas condições privilegiadas para as apresentações
de A Brava.
A
estação ferroviária, nessa dimensão, é palco de duplo significado. O primeiro
de aporte de memórias travadas ao longo de um tempo histórico, em que
prevalecia a dinâmica de embarque e desembarque de passageiros. O segundo, ao
abrigar o espetáculo que reúne uma jornada heroica, de um tema clássico na
dramaturgia, trazendo de um passado muito distante o chamado crítico e de
reflexão à luz dos nossos dias.
Reportando-se a uma tradição, que vem da Grécia antiga e evidenciou-se
em peças de Sófocles e Ésquilo (século IV a.C.), faz-se presente em A Brava o coro, quando um grupo de
atores afasta-se da ação principal e noticia os acontecimentos representados. A
ligação entre o drama que se desenrola – em que o público é encarado, muitas
vezes, olhos nos olhos, numa ação direta – e o coro tem um aspecto peculiar.
Ele assume o papel de uma personagem da peça, proporcionando quebras da ação,
de modo a fazer o público refletir e talvez fomentar tomadas de consciência.
As
atrizes e os atores elaboram sua presença cênica por meio da naturalidade,
aproximando os gestos e movimentos de suas ações cotidianas, numa linha de
adesão à linguagem enfatizada por Eugenio Barba. Nesse ponto, é possível notar que
elas e eles buscam sair de seus condicionamentos corporais, adquiridos na
apropriação de nossa cultura que evoca, com frequência, posturas rígidas
cerceadoras de atos criativos. Outro ponto alto, em meu entendimento, é o fato
de termos um vigoroso jogo teatral quanto à múltipla personagem Joana. Não há
uma protagonista que a encarna, senão todas as atrizes em cena que, na
composição do figurino, incluem acessórios que usam no dia a dia, resguardando
uma caracterização pessoal.
Foto: Giulia Baptistella
Nessa
linguagem selecionada, democratiza-se o protagonismo das mulheres – eis um insight de Lisa, que se deu conta de
quão fascinante seria retirar a posição de coadjuvantes. Todas são Joana d’Arc,
incluindo a própria diretora, que reforça o intenso processo de colaboração com
as atrizes ao evidenciar o desempenho das mulheres nas artes cênicas. É uma
condição em que não se apela ao trivial de ser a única, a que chama mais a
atenção. Passando longe do estatuto corriqueiro, essa transformação de todas
serem a heroína permite a manifestação tanto da face da guerreira quanto o
enfrentamento da opressão pelas mãos do patriarcado, no arranjo dramático que
encerra o acordo entre a monarquia e a Igreja católica.
A outra perspectiva de tal
representação é propiciar à plateia significados a serem extraídos não apenas
relativos ao âmbito artístico, mas, sem dúvida, ao palco da vida, à forma de
expressão mais desafiadora em que cada mulher pode e deve exercer inteiramente
seu papel de protagonista. Se, nos dias atuais,
existe uma ascensão de movimentos de mulheres que estão bastante conscientes de
fazer valer seus direitos e se empenham em atingir condições mais igualitárias
em relação aos homens, ainda há muito pelo que lutar, haja vista os índices
alarmantes de violência causados pela dominação masculina, seja no nível
físico, seja psicológico ou simbólico. O alerta principal, contudo, está
estampado em muitas manchetes, quando vemos que os casos de feminicídio em
nosso país só têm aumentado.
Em meu
olhar, talvez caiba a respeito do espetáculo fazer uma observação, apenas. Embora seja consistente a crítica ao poder da instituição católica,
notadamente naquela perspectiva que encerra um jogo de poder para o
estabelecimento de seu domínio, parece-me que uma pequena atualização crítica
poderia ser realizada em torno das muitas figuras de pastores, verdadeiro
fenômeno – não representativo de um conjunto homogêneo, e já existem bons
estudos a respeito do tema – atrelado ao crescimento de igrejas evangélicas e
pentecostais. Entre outras estratégias, acenam com as promessas de milagres e organizam
a recolha eficiente de dízimo, forjando, algumas delas, a formação de impérios
econômicos. Sua expressão está presente em canais de televisão e rádio, grupos
educacionais, editoras, gravadoras, criando uma rede de promoção às
candidaturas evangélicas. Não é à toa que atualmente entre elas há numerosos
representantes em altos postos no campo político, comprometendo a base de um
Estado que, para preservar sua função imparcial na defesa de direitos de todas
e todos, deve manter-se laico.

Foto: Giulia Baptistella
Criar uma interação vívida, capaz de dialogar
com os espectadores, chamando à mudança de realidade, em um país que vive um
tempo tão sombrio, é um dos impactos causados quando vemos A Brava. É também uma peça sustentada
por uma linha de pensamento em que se faz um combate ao consumismo e às
estratégias hegemônicas dominantes. Vamos supor que, por uma tarde, longe do
celular e da possibilidade de pensar em assistir a uma novela ou a uma série,
um dos mais recentes produtos da indústria cultural, você vá prestigiar esse
trabalho cênico. No desfecho, é provável que saia diferente de quando entrou,
talvez fazendo algumas perguntas, talvez desejando mudanças profundas. Penso
que é, de fato, essa a proposta de A
Brava, que traz uma tensão, entrelaçada por um senso de comprometimento
ético e social. Que você possa ser
impregnado por essa potencialidade. Bom espetáculo!
Eloísa Aragão
é historiadora (mestrado e doutorado em História Social pela USP), editora,
preparadora e revisora de textos.
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