terça-feira, 14 de julho de 2020

PELO GRITO DA MULHER SELVAGEM, por Catarina Andrade

Foto: Meire Garcia



Não é interessante para a sociedade patriarcal e capitalista que nós, mulheres, tenhamos uma voz ativa, que tenhamos controle sobre nossos corpos, sobre nossas vidas e que sejamos unidas.

Essa sociedade, durante séculos, nos tomou como posse do Estado, perseguiu, humilhou, escravizou e apropriou-se da forma mais cruel e violenta dos nossos úteros para servir-lhes de máquina geradora de novos corpos a serem explorados. Roubaram nosso conhecimento e o direito à fala; éramos “chacotas”, consideradas LEGALMENTE imbecis e incapazes de tratar das próprias questões.

A caça às bruxas, fato histórico do qual jamais poderemos negar o quanto suas raízes ainda afetam diretamente esse nosso viver cercado de violência, serve aqui de exemplo. Para esse fenômeno, a domesticação das mulheres foi um grande feito e para nós uma sentença de morte.

Com os ideais burgueses de domesticação e feminilidade, alentou-se o ódio e a repulsa à nossa existência, afinal, como reconhecer o próprio valor em uma sociedade que já disse que nossa única virtude era possuir um útero?

Martinho Lutero, o reformista protestante, disse sobre as mulheres: “São necessárias para produzir o crescimento da raça humana, quaisquer que sejam suas debilidades, as mulheres possuem uma virtude que anula todas elas: possuem um útero e podem dar à luz”.

Há uma luta diária para libertar nossos corpos das amarras desse sistema. Precisamos ocupar lugares predominantemente masculinos e exigir que nossa presença e fala sejam respeitadas e validadas, pois, fomos violadas, fisicamente e psicologicamente para nos tornarmos essas tais “belas, recatadas e do lar”.

Patrícia Rocha autora do livro “Mulheres sob todas as luzes” diz que em pleno século 21 a discriminação feminina ainda é o principal desafio a ser superado por nós.

Foto: Meire Garcia


Hoje eu resisto!

Resisto por aquelas que foram silenciadas em vida.

Resisto pela próxima geração de mulheres com espírito inquieto. E que elas venham para incomodar e não mais para acatar as funções que já não nos pertencem.

Que o futuro feminino venha  forjado por gritos selvagens.

Lutemos para que nasçam mais Lisas, Amandas, Danielas, Rafaelas, Marielles, Carolinas, Elzas, Djamilas e tantas outras que, com bravura, acreditam em suas vozes.

Foto: Meire Garcia

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