terça-feira, 2 de junho de 2020

AS PALAVRAS COMO FOGO por AMANDA SOBRAL


Foto: Bruno Martorelli

            Joana D´Arc, a personagem mote da reflexão do espetáculo A Brava da Cia de Eros, poderia ter dito outras palavras, poderia ter engolido letra a letra, fonema a fonema e ter produzido um enunciado favorável à perpetuação de sua vida. Sua premissa poderia ter sido trocada ou omitida em prol as incisivas grafias dominantes da história que a forçavam a negar tudo pelo o   que ela viveu, ou seja, das suas crenças e sua luta.  
            Entretanto, não era apenas trocas de palavras que estavam em jogo. Era a sua voz! O poder de contar a si e ao mundo o verdadeiro significado da sua existência. E agindo com tamanha envergadura entre o que se diz, pensa e faz seus princípios a acompanharam até a fogueira. E cada palavra dita e não dita morreram uma a uma até seu corpo acabar em cinzas.  
            Infelizmente para seus algozes não foi possível calar a voz de Joana D`Arc, pois, apesar de seu corpo ter sido violentamente destruído, sua história se alastrou, seguindo o rastro da reverberação de suas ideias e coragem, de tal forma que seu nome hoje é digno de sobrepujar seus oponentes a lama da imagem da ignorância.
        À luz da chama dessa fogueira é relevante questionar: você reconhece sua existência? Você dá voz a ela? Você acredita na sua voz? Ou talvez, o que é mais corriqueiro, já sentiu quando tentaram calar sua voz por ser mulher?
         As engrenagens sociais estão sempre armadas contra o posicionamento das mulheres no mundo. É possível sentir as linhas invisíveis, ou não, que conduzem os espaços sociais a disciplinar o silenciamento das mulheres ao longo da história. Não foram poucas as investidas para calar as mulheres e suas existências.  
         O terror praticado contra as mulheres durante a caça as bruxas na Europa pré-capitalista foi alicerce para a construção da nova função social das mulheres e na degradação de sua identidade social. O novo modelo de feminilidade para a mulher e esposa ideal, depois de dois séculos de terrorismo do Estado, era a presteza com as tarefas, ser passiva, obediente e calada. Portanto, não questionar a “natureza” de sua inferioridade perante os homens.
"Calibã e a bruxa", pág. 201

       A redefinição de papéis e ideologias, durante a transição entre o feudalismo e capitalismo, foi maximizada através da figura da “mulher resmungona” descrita repetidamente na literatura da época. Logo, a única forma de resistir diante das opressões se resumia a fala. E foi o ato de falar que mais uma vez foi silenciado através da violência. Mulheres que insistiam em contestar seus maridos eram castigadas publicamente com uma espécie de rédea de ferro na boca.
        O falar, a língua, foi um instrumento de insubordinação que passou a ser motivo de conotações depreciativas que taxam até hoje as mulheres como possuidoras de uma “língua afiada” feita supostamente apenas para fofocar. Quantas vezes já ouvimos brincadeiras em rodas sociais que atacam diretamente essa questão como ponto de hostilidade? 
        A comunicação entre homens e mulheres, numa grande parcela da sociedade, parece ser conduzida por um subtexto perverso e opaco aos insensíveis. É tão comum e tão tomado como verdade que não somente o falar das mulheres que é chacota. A sua voz não é ouvida!
    
      Joana D´Arc, voltando a nossa personagem, também foi silenciada numa chama perdendo sua vida, e o que mais fizeram, antes de condená-la a fogueira, foram infinitas perguntas num interrogatório que durou meses. Entretanto, o que menos eles queriam, era ouvi-la. Eles queriam eram ouvir dela as suas próprias palavras. Sua subordinação. Dominá-la!
      Quantas vezes nos vemos engolindo nossas palavras e nossas visões de mundo? Quantas vezes percebemos que falamos, falamos e falamos e não somos ouvidas? Quando impedem nossas palavras querem calar algo muito mais profundo, que é a nossa voz, nosso espaço e lugar no mundo. Querem nos calar a todo dia e a toda hora! Cabe a nós, transformarmos nossa voz em potência, em fogo, que não mais nos consome, mas que se alastra e contamina as demais mulheres. E que de nossas línguas, palavras e voz se faça o verdadeiro fogo!  

11 comentários:

  1. Belíssimo texto! Esclarecedor, verdadeiro e forte!

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  2. Caralho.... Amanda você escreve de forma muito visceral, além de ser bem bonito é muito potente, da pra te ver desenhada no texto, tem muito de você ali.. logo ficou muito mais genuíno, tem esse lugar né de indagação pra reflexão, mas de um lugar de potência de força! Parabéns? Não sei que palavra usar, acho que só assimilar e aprender já basta

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  3. Me emocionou. Me senti representada na fala, obrigada pela voz.

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  4. Parabéns Amanda pela sensibilidade ao descrever um tema tão difícil na atualidade.
    Adorei o texto!

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  5. Sim! É difícil ser ouvida num mundo com pensamento predominantemente masculino. Nós mulheres também fazemos isso com outras mulheres. Homens possuem respeito e são ouvidos por serem homens, não precisam ser bons, nem os melhores, aliás, ok ser mediano... Nós, para que nos ouçam, para que nos respeitem, precisamos ser "as" melhores, precisamos nos superar.. Esse provar constante cansa...
    Parabéns minha irmã por um texto tão forte e visceral.
    Bju

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  6. Lindo texto que representa muitas de nós nesses tempos de idolatria aos horrores do passado. Porém mulheres fortes como a autora do texto e a personagem referida somos protagonistas das nossas vidas. Você me representa Amanda Sobral.

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  7. Além de excelente atriz, Amanda escreve muito bem.

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  8. Obrigada a todos !! Muito feliz com a repercussão do texto !!

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  9. Que texto profundo e verdadeiro! Maravilhoso!!!! Parabéns, Amandinha, você escreve maravilhosamente firme e bem!

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